3 INJEÇÕES MAIS PERIGOSAS que a CANETA de EMAGRECER (Nunca Use!)
Uma mulher entra no meu consultório numa cadeira de rodas. Jovem. Primeira vez na vida assim, puxando o ar pela boca, falando em pedaços. Eu ponho os dedos no pulso dela: disparado.
Sem ar do nada, coração a mil. O cardiologista pensa em coágulo no pulmão antes de qualquer outra coisa. E embolia, em gente jovem, quase sempre tem um motivo por trás.
Perguntei o que ela tinha feito de diferente. Ela tinha injetado um peptídeo para ficar mais bonita. Hospital na hora.
E ficou uma pergunta no consultório vazio. Quando dá errado, alguém sabe o que entrou no corpo daquela pessoa? Alguém sabe o que está entrando no seu?
Ela não sabia. Quem vendeu não sabia. Eu, com ela na minha frente, sem arma.
É disso que eu vou falar hoje, tá? Da distância entre o que te prometem e o que você injeta, e também sobre o cemitério da beleza.
Primeiro, a palavra: peptídeo.
Peptídeo é um pedaço de proteína, uma cadeia curta de aminoácidos que funciona como mensageiro pro seu corpo. A insulina é um peptídeo. A semaglutida do Ozempic é um peptídeo. A tirzepatida do Mounjaro é um peptídeo.
Então a palavra não diz se é remédio ou se é veneno, só diz que é uma mensagem. A diferença está em três coisas: quem escreveu essa mensagem, se alguém testou o que ela manda o corpo fazer, e se você sabe o que tem no frasco.
Remédio de farmácia tem as três: registro, estudo e lote. O frasco da internet tem a palavra.
Hoje eu vou abrir com você os três frascos que tomaram conta da internet, os peptídeos mais usados.
E eu vou começar pelo terceiro, que parece mais inocente, até chegar no primeiro, que é o que mais me assusta como médico.
Terceiro frasco: Melanotan 2, o bronzeador injetado.
Também vem em spray de nariz. Prepara a pele pro verão. Cor de verão sem sol. Parece brincadeira de férias.
A cor vem, e vem também nas suas pintas. A agência de remédios da Austrália alerta: a substância aumenta e escurece pinta e sarda. E como o melanoma, o câncer de pele que mais mata, avisa que chegou? Numa pinta que muda de cor.
Então o produto escurece todas as pintas de uma vez, e a pessoa olha a pinta mudando de cor e pensa: "Olha, está funcionando." O único aviso que o corpo dava foi apagado. Já tem melanoma publicado em quem usou.
Estica o braço. Agora olha o ombro. Usou o bronzeador injetável?
Tem uma pinta que escureceu, mudou de forma, ficou com a borda torta? Você achou o motivo desse vídeo.
Dermatologista já. Mapeamento do corpo inteiro. E conta o que aplicou, porque ele não acha o que não sabe que está procurando.
Segundo frasco: TB-500.
Frasquinho de tampa de borracha. Promessa: recupera em metade do tempo. Você faz exercício, se mata lá, e no outro dia já tá recuperado.
Primeira surpresa, e essa é do FDA, esse ano: embaixo desse nome estão vendendo substâncias diferentes. Você pesquisa TB-500, seu amigo compra TB-500, e o que está dentro pode ser outra coisa, totalmente diferente.
Segunda surpresa: 2003, revista do Instituto Nacional do Câncer americano. Camundongo com melanoma, e o tumor produzindo a molécula-mãe desse produto, a timosina beta-4. O que que deu? Metástase no pulmão.
No grupo comum, eles tinham 11. No grupo com a molécula, 47. Quatro vezes mais vasos dentro do tumor. Gente, ninguém mediu, e tem gente injetando lá no vestiário.
O vendedor sabe de cor quantas vezes aplicar, quantas semanas, quanto custa o pacote. Protocolo bonito, dá uma sensação enorme de segurança. A única pergunta que importa continua sem resposta.
Nome de código, letra e número, sem bula. Isso é material de laboratório que alguém resolveu vender. Devolve.
E agora o primeiro, o que mais me assusta, porque é o que mais parece remédio e chega pela mão de quem você confia.
Primeiro frasco: BPC-157.
Seis meses de dor no ombro, mudou de treino, tomou remédio, melhora e volta. Aí o cara da academia, que tava igual a você: "Tomei isso e fiquei novo." Mostra o frasco, mostra o braço girando, manda o contato. Pronto.
Agora o frasco tem uma coisa que nenhum anúncio compra: a confiança que você tem no seu amigo. Escrito nele: BPC-157, cicatrização, tendão, joelho, intestino.
O governo americano avaliou esse frasco em julho. Estudo em gente: pequeno e curto. O maior, 53 pessoas, duas semanas, comprimido. Injetável, nenhum.
E o jeito que ele cicatriza é o que me tira o sono. Ele cria vasos sanguíneos novos: angiogênese. Me responde de cabeça: o que o tumor de 2 mm precisa para virar um câncer de verdade, além da mutação?
Vaso. Uma estrada de sangue levando açúcar e oxigênio até ele.
E o FDA escreveu com todas as letras: estudo de tumor com essa substância não existe. Ninguém testou. Vende-se uma coisa pelo talento de construir estrada de sangue, e ninguém perguntou o que acontece se você já tiver um tumor que nem sabe que tem.
Por isso ele é o número um. O terceiro apaga o sinal. O segundo, ninguém mediu. O primeiro constrói a estrada.
Seu amigo melhorou do ombro? Fico feliz por ele. Isso não responde onde está o estudo de câncer.
A frase que protege o vendedor, e não você.
Nos três frascos, uma frase miúda: "uso exclusivo para pesquisa, não destinado ao consumo humano". E no mesmo pacote, a orientação de quanto aplicar em você. O rótulo diz que não é pra gente; a conversa te ensina a usar.
Em agosto, o FDA mandou carta de advertência para esses vendedores e provou para quem era aquilo, com um detalhe só: eles mandavam a água bacteriostática e a seringa juntas. Ninguém manda seringa pro rato.
E a Anvisa, em julho, escreveu com essas palavras: não existem cosméticos injetáveis, e suplemento no Brasil é só pela boca. Te ofereceram um cosmético injetável ou um suplemento injetável? A conversa acabou ali. Essas duas coisas não existem na lei.
Agora, a caneta de emagrecer.
Semaglutida, tirzepatida, são peptídeos também. A diferença é que essas têm registro, estudo e lote na farmácia. E mesmo assim tem gente comprando a versão sem nada disso no WhatsApp.
Você compra porque é mais barato. Então vou te contar uma coisa boa, porque o preço mudou em junho e ninguém te contou.
A conta que mudou em junho.
No grupo do condomínio, a caneta de emagrecer a R$ 300, sem nota. Até junho, quem comprou fez uma conta que eu entendo: mil a dois mil na farmácia, 300 no paralelo.
Só que em junho chegaram as primeiras versões genéricas nacionais da semaglutida, com registro na Anvisa, bula, lote. Uma delas é a Ozivy, e já tem outras vindo aí. No pacote promocional de três canetas de 1 mg, custa R$ 999 para 3 meses. Então, entre R$ 280 e R$ 330 por mês.
A contrabandeada do Paraguai: R$ 310 a R$ 550 por mês. O contrabando ficou igual ou mais caro que o remédio da farmácia da esquina.
E as apreensões da Polícia Federal foram de oito canetas em 2023 para 130 mil canetas só no primeiro semestre desse ano. Tem gente pagando o mesmo para correr risco de vida sem precisar.
Pega o celular depois, digita "semaglutida genérica" no aplicativo da farmácia e leva o valor pro seu médico. Porque aquela caneta contrabandeada de R$ 300 passa por um trajeto que nenhum vendedor conta até chegar na sua casa.
A bula dessa caneta manda 2 a 8 °C.
Geladeira, sempre. Sabe onde a Receita Federal está achando? Dentro de pneu, dentro de sola de sapato, dentro de calcinha, de cueca, colada em motor de carro a 90 °C.
R$ 47 milhões apreendidos em 5 meses, quase tudo cruzando o Paraná, escondida como droga prensada. E com esse calor, a validade é o que menos importa.
Um estudo de julho mediu semaglutida no calor e na luz. Os grumos dentro do líquido saltaram de 0,3% para 14%. O remédio embola: deixa de ser um fio fino de proteína e vira um novelo. E o seu sistema de defesa lê novelo como invasor.
As impurezas do produto degradado foram atacadas pelas células de defesa de 100% dos doadores testados. Com glucagon a 37 °C por 30 dias, o novelo virou uma fábrica tóxica que matou as células em que encostou.
Caneta que veio de carro, mala, correio, sem gelo: ninguém sabe que temperatura ela viu. E a seringa não avisa.
O que tinha dentro?
Um laboratório do governo alemão abriu canetas falsificadas apreendidas na Europa. Sim, lá também tem caneta falsificada. Dentro: insulina. E além disso descobriram duas substâncias, cresol e trometamol, que não existem na original e existem na insulina de ação rápida.
Na Áustria e no Reino Unido, gente na UTI em choque de hipoglicemia, aquele açúcar baixo, tendo convulsões. Achavam que estavam emagrecendo e estavam aplicando insulina em jejum.
Aqui no Brasil, a Unicamp abriu as canetas do Paraguai: marcas com 60% a mais de princípio ativo do que dizia no rótulo. A overdose sem você saber.
E pesquisadores fizeram o teste mais simples de todos: seis compras de semaglutida em vendedores ilegais da internet. Três pegaram o dinheiro e sumiram. Três entregaram.
O anúncio prometia 99% de pureza. A análise achou 7, 9, 14% de pureza.
Só uma amostra tinha endotoxina, o sinal de bactéria, aquilo que dá febre alta, choque. E a dose, entre 29 e 39% acima do rótulo.
Você faz a conta pelo número do rótulo, segue tudo certinho, e o número do rótulo está errado. Dá para seguir todas as instruções e continuar sem saber a dose que você aplicou.
O lacre bonito, o líquido transparente, o vendedor que responde em 30 segundos. Pureza, dose e bactéria, o seu olho não enxerga. Os três que levaram golpe e não receberam as canetas, no final das contas, tiveram sorte.
Hoje, seis em cada 100 brasileiros adultos usam caneta para emagrecer. Sabia disso? 6% dos brasileiros adultos.
De quem compra no paralelo, só cinco em cada 100 contam pro médico. Eu não julgo quem me conta. Eu só não consigo proteger quem esconde.
Agora, a história que deixou cirurgiões do mundo inteiro sem palavras. E ela responde a pergunta do começo de um jeito que eu preferiria que não respondesse.
A ordem que não desliga.
Um cirurgião plástico enfia a agulha na bochecha deformada de uma mulher e puxa o êmbolo, esperando que volte algum tipo de gel. Volta vazia. 2 cm ao lado, vazia de novo.
Não tem o que drenar. O rosto dela continua crescendo.
Bubble face. Isso lá na China. Os cirurgiões procuravam um produto injetado.
O produto tinha ido embora um mês antes. O que sobrou não era o produto, era a ordem que ele deixou.
Injetaram um fator de crescimento. Outra substância vendida com a mesma promessa de sempre: rejuvenescer. A mesma coisa que os peptídeos falam.
Preenchedor ocupa espaço e um dia sai. Fator de crescimento é uma instrução para as suas células: multipliquem-se. E o corpo obedeceu.
32 mulheres no estudo. Gordura crescendo dentro do músculo do rosto. Fibra onde não tinha fibra. 20 das 32 foram pra cirurgia, cortar fora o que o próprio rosto fabricou.
Quando dá errado, alguém sabe o que entrou no corpo daquela pessoa? Essas mulheres sabiam o nome, mas não adiantou. Depois que a ordem é dada, não tem botão de desligar.
E veja, essa história não começou ontem.
Eu vou te contar sobre o cemitério da juventude.
1899: Robert Gersuny começou a injetar parafina derretida em gente.
Gladys Deacon, uma das mulheres mais bonitas do mundo, pintada por artistas renomados, futura duquesa, manda injetar parafina no nariz para ter o perfil perfeito. A cera escorre pro queixo. Nódulos duros, permanentes.
O rosto vira outro, se transforma. Uma mulher que antes era linda passa a perder todo aquele glamour. Ela passa o resto da vida escondida e mandou tirar os espelhos da casa.
A medicina deu o nome: parafinoma. A cera migrava, virava pedra, abria cratera. A saída, né? Amputar a mama, se injetou na mama, ou mutilar o rosto.
Há 120 anos, a humanidade já sabia o que acontece quando você injeta uma coisa que o corpo não consegue expulsar nem desligar.
1923, Londres: 700 cirurgiões aplaudem de pé Voronoff, que costurava testículos de macaco em homens, prometendo juventude eterna. 2.000 pacientes fizeram essa loucura.
Eben Byers, industrial rico, famoso, bebe quase 1.400 frascos de Radithor, água com rádio. Só para te explicar: rádio, de onde veio o nome radiação. Lembra do problema do césio em Goiânia? Mais ou menos isso.
Mas ele tomou o rádio pensando que ia ficar mais bonito, mais forte, mais viril. Aconteceu o contrário. O rádio comeu os ossos dele, arrancou a maxila dele, matou ele. Ele foi enterrado em caixão forrado de chumbo.
No Kansas, John Brinkley enriquece costurando testículo de bode em homens mais velhos. Promete virilidade. Sabe o que aconteceu? 42 atestados de óbito.
Nos salões dos anos 20, mulheres põem o rosto no Tricho System: raio X para queimar o buço, ficar sem nenhum pelinho, ficar lisa, lisinha. 20 anos depois, epidemia de câncer no rosto.
2.000 anos antes, o primeiro imperador da China morre bebendo mercúrio, o elixir da imortalidade. E hoje bilionário paga 8.000 dólares por sangue de adolescente, mas o exame depois comprova: nenhum benefício.
No Brasil, a parafina só mudou de nome: silicone industrial, PMMA de fundo de quintal. O verdadeiro já é ruim. A regra do corpo nunca mudou. O marketing, sim.
As três perguntas.
Tem registro na Anvisa e bula?
É importado, é para pesquisa, fórmula exclusiva? A resposta é não? Não aplique.
Você sabe o nome, a dose e o lote?
Pega o frasco. Se você não consegue ler os três, seu médico não vai adivinhar numa emergência. Consulta antes de qualquer agulha. E se quem vende responde com deboche, essa foi a resposta que você queria ouvir.
Três: aplicou e sentiu alguma coisa?
Falta de ar súbita, palpitações, dor no peito, uma perna só inchada, língua ou garganta inchando, visão estranha: pronto-socorro agora. Leva o frasco, a caixa, o print da conversa. Não achou a caixa? Vai sem ela.
Alguém sabe o que está entrando no seu corpo? Depois de hoje, a resposta que você tem que dar é: não aplique isso em mim.
Lembra da mulher da cadeira de rodas?
Naquela hora, ficar mais bonita não importava mais. Ela queria respirar. Eu queria ter podido cuidar dela sabendo o que ela tinha injetado, o que eu estava combatendo.
Por isso essa conversa é hoje. Antes da compra, antes da agulha. Não faça nenhuma besteira. Tem gente que, sem querer, foi tomar remédio para crescer cabelo e morreu.
Um dia alguém perto de você vai dizer que achou um frasco milagroso pela metade do preço. Manda esse vídeo para essa pessoa com uma frase: "Vi isso e lembrei de você. Vamos conferir antes de aplicar."
Antes da agulha entrar. Depois, a ordem já foi dada.
Isso aqui não substitui consulta médica. Quem decide remédio, indicação e dose é o seu médico. Espero que ele não seja médico picareta que queira vender soro da juventude, ou soro da beleza, ou soro para não te deixar mais cansado.
O frasco dura algumas semanas. Você vai morar nesse corpo pelo resto da vida.