ZUMBIDO no OUVIDO 8 SUSPEITOS do APITO QUE SÓ VOCÊ ESCUTA!

Um apitinho fininho, chiado, uma cigarra que ninguém mais escuta, só você e que parece ficar ainda mais alta, justamente quando tudo fica em silêncio e a cabeça encosta no travesseiro.

Aí vem a pergunta que muita gente me faz: "Doutor, se só eu escuto esse barulho está mesmo no meu ouvido?" Guarda só essa pergunta, uma só, porque hoje a gente vai passar pelos oito suspeitos do zumbido, do menos comum até o principal. Em cada um, você só precisa se perguntar: "Sou eu?"

E quando chegar o número um, você vai entender de onde esse som realmente vem e por que ninguém do seu lado consegue escutar. Também vou te mostrar o que hoje realmente funciona para diminuir o zumbido. E vou fazer as três perguntas que separam o zumbido comum daquele que você não pode ignorar.

Você tem chiado no ouvido? De que parte do Brasil ou do mundo você é? Escreva embaixo.

Zumbido é doença ou é sintoma?

Vamos lá. Primeiro, uma coisa importante. Na maioria das vezes, zumbido não é uma doença, é um sintoma. Eu gosto de pensar nele como um alarme. Se um alarme dispara dentro de casa, você não fica brigando com a sirene, você procura o que fez o alarme tocar.

O zumbido é igual e ele é muito mais comum do que parece. Cerca de uma em cada cinco pessoas convive com algum grau de zumbido. Numa família de 10, provavelmente são duas. Muita gente sofrendo calada, achando que é frescura, achando que é só com ela. Se você conhece alguém assim, esse texto foi feito para vocês dois.

Agora vamos procurar o culpado.

Suspeito número oito: a mandíbula

Me responde: você range os dentes à noite, acorda com a mandíbula cansada, abre a boca e estala? Dona Marta rangia tanto que o marido escutava o barulhinho do outro lado da cama. Ela tinha um apito no ouvido e jurava que o problema era o ouvido; era mandíbula.

Encosta o dedo aqui bem na frente da orelha e abre a boca. Sentiu mexer? Essa é a articulação da mandíbula. E olha onde ela mora: colada no ouvido. Bruxismo, problema nessa articulação, tudo isso pode provocar ou piorar o zumbido.

E tem uma pista interessante: se você mexe a mandíbula, aperta os dentes e o zumbido muda, esse suspeito fica ainda mais forte. A dona Marta foi ao dentista, dormiu com a placa e o apito foi embora junto com o rangido.

Suspeito número sete: o estresse

O número sete quase nunca é o criminoso principal, é o cúmplice: o estresse. Você já percebeu? Dia tranquilo, o zumbido fica lá no fundo. Dia de preocupação, noite mal dormida, parece que alguém aumentou o volume.

Isso acontece porque o zumbido não envolve só audição, envolve atenção e emoção. Quanto mais o cérebro acha aquele som importante, mais difícil ignorar. Aí nasce o círculo: o zumbido incomoda, você presta mais atenção, fica preocupado, presta mais atenção e ele parece maior.

Por isso, tratar zumbido nem sempre é fazer o som sumir. Às vezes é ensinar o cérebro a tirar ele do centro do palco.

Suspeito número seis: a tireoide

Agora olhe pro resto do corpo. Você emagreceu sem tentar? Coração anda acelerado, a mão treme, sente calor demais? O seu Antônio tinha uns três. E no meio disso chegou o apito.

O suspeito morava no pescoço: a tireoide, a glândula borboleta que controla o ritmo do corpo. Quando ela acelera demais, tudo acelera junto — coração, circulação, e o ouvido sente. A vantagem desse suspeito: um simples exame de sangue já prende ele.

Suspeito número cinco: os remédios

Agora pensa no tempo. O seu zumbido começou depois de algum remédio novo ou depois que a dose aumentou? Seu José começou um antibiótico forte na segunda-feira; na quinta o apito chegou.

Existem remédios capazes de provocar ou piorar zumbido. Alguns anti-inflamatórios, aspirina em dose alta, certos antibióticos dependendo da dose e da situação. Então faz a pergunta simples: o que mudou pouco antes desse apito começar? Se a resposta for um remédio, pega a caixa agora, olha o nome e leva para quem receitou.

Mas atenção, isso é inegociável: não pare nenhum remédio sozinho, principalmente remédio de coração, de pressão, antibiótico. A data é uma pista, não é autorização para suspender nada por conta própria.

Zumbido no ouvido esquerdo tem significado espiritual?

Antes do próximo suspeito, eu preciso responder uma das perguntas mais buscadas no Brasil sobre esse assunto: zumbido no ouvido esquerdo é aviso, tem significado espiritual?

Eu respeito profundamente a fé de cada um. Ela é sua e ninguém tira. Mas como médico, o meu pedido é: deixe o corpo falar primeiro, porque o zumbido pode vir da audição, da mandíbula, do remédio, da circulação. E algumas dessas causas precisam de investigação. Descarta o corpo primeiro; depois a sua crença pertence a você.

Suspeito número quatro: o zumbido que bate (pulsátil)

Agora vem um suspeito muito importante — e esse é a minha praia. Faz um teste comigo agora por um segundo. Escuta o seu zumbido. Ele é contínuo, "pi", ou ele faz "vum, vum, vum" no ritmo do coração?

Põe dois dedos aqui no pescoço, no pulso. Compara o barulho, acompanha a batida. Dona Creusa escutava o próprio coração dentro do ouvido toda noite no travesseiro. Isso é zumbido pulsátil. Ele muda a investigação.

Ele pode ser o som do próprio fluxo de sangue em vasos perto do ouvido. Pressão alta, alterações vasculares são algumas das possibilidades. É exatamente por isso que o zumbido pulsátil merece atenção. Se o seu bateu junto com o pulso? Não é para você se diagnosticar em casa, é para reconhecer a pista. Ela é uma das três perguntas finais.

Suspeito número três: a cera no ouvido

O mais simples, mais inocente da lista. Além do apito, o seu ouvido parece tampado, som abafado, como se tivesse água lá dentro?

Seu Valdemar chegou no consultório achando que estava ficando surdo. Era uma rolha de cera encostada no tímpano. A limpeza no otorrino, 10 minutinhos, silêncio de volta.

Só que aí vem o erro clássico: "Vou pegar o cotonete." Não, não, não, não. O cotonete não tira a cera, ele soca a cera para dentro. E vela de ouvido também não, pelo amor de Deus. Cera se resolve no consultório rapidinho. Às vezes o grande vilão do vídeo inteiro é só uma rolha, mas o próximo não é.

Suspeito número dois: o barulho e a perda auditiva

Agora pense na sua vida inteira, não nessa semana. Você trabalhou em fábrica, em construção, serra, motor, foi a centenas de shows de paredão, usou fone alto durante anos? Número dois é o barulho.

Dentro do ouvido existem células sensoriais delicadíssimas. Som forte demais machuca essas células. E o problema é esse: o estrago soma. Um show, depois outro. Anos de máquina, anos de fone. E parte dessa perda é para sempre.

E olha a pegadinha: a primeira pista pode não ser "tô surdo". Pode ser porque tem um apito quando tudo fica quieto. Por isso protetor de ouvido em ambiente barulhento não é frescura, e volume de fone importa. O seu ouvido daqui a 10 anos está sendo construído agora.

Suspeito número um: o som fantasma

Isso nos leva direto ao suspeito número um. Porque agora eu vou responder a pergunta do começo: se só eu escuto esse barulho, está mesmo no meu ouvido?

O companheiro mais comum do zumbido é a perda de audição, principalmente com a idade. E aqui está a parte fascinante: durante décadas, o seu ouvido mandou pro cérebro um mundo de informação — voz, passarinho, chuva, talheres, tudo. Só que algumas frequências começam a chegar mais fracas. O ouvido entrega menos. E o cérebro tenta compensar.

Pensa num rádio antigo: quando você perde a estação, você aumenta o volume, aumenta mais e o que aparece? O chiado. Uma das principais explicações do zumbido é essa: o ouvido entrega menos, o cérebro aumenta o volume interno e o chiado desse volume no máximo é o apito que só você escuta.

Então, a resposta da pergunta: está no ouvido ou no cérebro? Muitas vezes os dois participam. Muitas vezes a história começa com informação que o ouvido deixou de entregar, mas o som fantasma que você percebe é fabricado no cérebro. Por isso que a pessoa dormindo do seu lado não escuta absolutamente nada.

O que realmente funciona para diminuir o zumbido

Isso explica a próxima coisa: se o cérebro grita porque falta som, o que acontece quando o som volta?

Aparelho auditivo

A parte que muita gente não sabe: quando existe perda auditiva junto com o zumbido, uma das principais opções é algo que muita gente resiste em usar, o aparelho auditivo. Ele devolve os sons de fora, a conversa fica clara, o mundo volta a ter detalhe. Em muita gente o zumbido fica bem menos perceptível.

E sobre a vergonha, deixa eu te perguntar: você teria vergonha de usar óculos porque a vista mudou? Então, por que ter vergonha de aparelho porque a audição mudou? Aparelho auditivo é o óculos do ouvido, só isso.

Terapia comportamental

Mas não é a única arma. Lembra do cúmplice do número sete? Aquele círculo de atenção e preocupação também dá para atacar ali: a terapia que treina o cérebro a tirar o zumbido do palco.

Isso foi testado do jeito mais duro: um aplicativo de terapia contra um aplicativo de mentira, placebo, igualzinho por fora. No final, o aplicativo de verdade abriu uma vantagem de 20 pontos na escala de impacto do zumbido sobre o aplicativo falso. O som pode não sumir, mas ele para de mandar na sua noite, no seu sono, na sua vida.

Aparelho novo aprovado nos EUA

E para quem tem zumbido forte, tem mais. Existe hoje, autorizado pela FDA dos Estados Unidos, um aparelho para adultos com um zumbido pelo menos moderado, que parece ficção científica. Ele toca som no ouvido e ao mesmo tempo dá pequenos estímulos na língua, reeducando o cérebro por dois caminhos ao mesmo tempo.

Não é cura e não é para todo mundo, mas para quem passou anos ouvindo "aprende a conviver, não tem nada a fazer", tem, e cada vez tem mais.

Gotinhas, Ginkgo biloba e remédios: o que a ciência mostra

Agora eu sei o que você está pensando: "Tá, doutor, e a gotinha? E o Ginkgo biloba? E a vitamina da internet que eu comprei?" Vem cá que essa parte economiza muito dinheiro.

Até hoje não existe remédio aprovado no mundo para zumbido. Um candidato promissor foi testado contra placebo, contra comprimido de farinha. Resultado: 26% de melhora no remédio. Mas, pior, 36% de melhora na farinha. A farinha ganhou do remédio.

E o Ginkgo biloba, tão famoso: a maior revisão científica do mundo juntou os estudos todos: diferença de pouco mais de um ponto numa escala de 100, e com evidência muito incerta.

Existe uma indústria inteira disposta a te vender silêncio dentro de um frasco. Mas zumbido não é uma doença única. Se o seu vem da cera, trata a cera. Se é mandíbula, trata mandíbula. Você tem perda auditiva, trata a audição. Se pulsa, investiga a circulação. O tratamento começa quando você descobre o seu suspeito.

As três perguntas que você não pode ignorar

Agora, as três perguntas que eu prometi. Responda aí, pode ser em voz alta.

Pergunta número um. O seu zumbido é persistente em um só ouvido? Só o direito, só o esquerdo? Diferença clara de um lado pro outro merece investigação. Não é automaticamente grave, mas não é detalhe para ignorar.

Pergunta dois. Ele bate junto com o coração? Lembra do teste dos dois dedos no pescoço, pulso e zumbido? Se acompanha a batida, investiga.

Pergunta três. Ele chegou junto com uma perda repentina de audição? Você ouvia normal e de repente um ouvido abafou, ensurdeceu, ainda mais com tontura junto? Essa é a única em que eu não quero que você espere nada. Perda súbita de audição é urgência. Procure avaliação médica rapidamente, idealmente no mesmo dia.

Respondeu sim em alguma? Vá ao otorrino o quanto antes. Respondeu não nas três? Respire. O seu está no grupo da imensa maioria, os que não são graves e que melhoram quando a gente prende o suspeito certo.

Como é feita a investigação: audiometria e o SUS

Por onde começa a investigação? Por um exame mais simples que limpeza de dente: a audiometria. Você entra numa cabine silenciosa, põe um fone, escutou o som, aperta o botão, escutou o outro, aperta o botão. Acabou. Não dói, não tem agulha, não tem preparo, não entra em uma máquina. 20 minutos e sai um mapa da sua audição.

Mas, doutor, eu escuto perfeitamente? Pode até parecer, mas a audiometria enxerga perdas de frequência que você ainda nem percebeu no dia a dia. E aí aquele apito que parecia não ter explicação começa a fazer todo sentido.

Se o zumbido pulsar, a investigação vai além: pressão e circulação juntas, trabalho em dupla: otorrino e cardiologista.

E para quem depende do SUS, uma coisa importante para quem me lê no Brasil inteiro: o SUS tem serviço de saúde auditiva, tem avaliação e, quando há indicação, tem fornecimento de aparelho auditivo. Você sabia disso? A fila varia de região para região, mas o direito existe. Então não aceite "ah, estou ficando velha, assim mesmo", nem tenho vergonha do aparelho.

Você usa óculos para continuar enxergando, usa aparelho para continuar ouvindo. Isso não tira a sua independência, devolve. Você voltar a ouvir reduz o risco de demência — e é a causa número um de demência evitável. Rastrear audição de idoso é barato e devolve anos de vida boa.

Conclusão

Guarda uma frase desse texto: zumbido é um alarme. Não adianta brigar com a sirene, descobre quem disparou. Se foi a mandíbula, se foi o estresse, a tireoide, o remédio, a circulação, a cera, o barulho de uma vida ou audição pedindo ajuda.

E agora você sabe a resposta da pergunta do começo: muitas vezes a história começa no ouvido, mas quem fabrica o som fantasma é o cérebro. Por isso, só você escuta.

E talvez essa seja a informação mais importante de hoje: zumbido não é sentença de sofrer para sempre. Não existe gota milagrosa, mas existe investigação, existe tratamento da causa, existe aparelho, existe terapia com resultado medido, existe tecnologia nova e existe uma coisa que muita gente perdeu há anos: esperança de verdade, com ciência atrás.

Isso aqui é informação de qualidade feita com carinho. Quis fazer o melhor conteúdo sobre zumbido, mas isso não substitui a consulta com o seu médico.

André Wambier, cardiologista