É o FIM da CIRURGIA de CATARATA? Novo Colírio Promete DISSOLVER em Casa!

Um novo colírio criado para tentar frear e talvez reverter a catarata sem cirurgia está sendo testado em humanos nos Estados Unidos. O primeiro participante acaba de receber as primeiras gotas no estudo controlado por placebo. Não é rato de laboratório, é gente.

E eu descobri essa história do jeito mais estranho possível. Dentro de uma sala de cinema. Levei meus filhos para ver a Odisseia.

Sala escura, tela gigante, num close da Anne Hathaway. Vi um brilho que me pareceu diferente no olho dela. Cutuquei meu filho: será que ela operou catarata? Pai, não atrapalha. Presta atenção no filme.

Cheguei em casa, fui pesquisar. Ela mesmo contou. Catarata precoce, 10 anos enxergando mal. E olha que ela tinha só 30 e poucos anos.

Hoje você vai entender o que a catarata realmente é, o que esse novo colírio tenta fazer, porque o óleo de rícino do grupo da família não tem evidência de que dissolva a catarata. E o que você pode fazer hoje para proteger seus olhos? No fim, eu volto àquele brilho e te mostro um sinal que pode aparecer numa foto de celular. Mas antes de cancelar qualquer cirurgia por causa dessa notícia, claro que tem uma pegadinha.

O que é catarata?

Afinal, muita gente acha que catarata é uma pele crescendo por cima do olho, não é? Atrás da parte colorida do seu olho, a íris, existe uma lente transparente chamada cristalino. Ela focaliza a luz na retina e é feita de proteínas.

Olha a clara desse ovo cru, transparente. Deixa a luz passar, né? Agora esquenta e vira isso.

A proteína fica branca, opaca. A proteína não sumiu, ela embolou. A proteína embolada espalha a luz em vez de deixar passar.

Catarata é isso. Proteínas que passaram décadas organizadas começam a se desorganizar. Idade, oxidação, sol, remédios, o tempo fazendo seu serviço lento. A OMS estima que mais de 94 milhões de pessoas com catarata no mundo.

Catarata fica dentro da lente, atrás da córnea, atrás da íris. Então, como alguém promete um colírio para chegar até lá? Já chegamos nisso.

Quais os sintomas e sinais de catarata?

Primeiro, como perceber que a sua pode estar começando? Catarata geralmente não dói nem coça. Ela rouba a visão devagar. O farol à noite vira uma estrela com halo, as cores ficam lavadas, você troca os óculos e meses depois o grau mudou de novo. Para ler no celular precisa de cada vez mais luz.

Se você reconheceu dois ou três desses sinais, atenção: isso é indício, não é diagnóstico. Visão embaçada também pode ser glaucoma, doença da retina, diabetes mexendo no olho. Algumas dessas precisam ser descobertas cedo. Quem diferencia é o exame oftalmológico, você ir pro oftalmologista.

Catarata não é só coisa de velho

E se você pensa que catarata é coisa de 80 anos, a Anne Hathaway também pensava, ela tinha 30 e poucos. Existem três tipos que importam nessa história.

A clássica da idade

A lente endurece e fica branca, amarela. É de longe a mais comum.

A congênita

O bebê já nasce com a lente turva, muitas vezes por alteração genética.

A que chega antes da hora

Essa frequenta meu consultório porque adoro dois personagens que eu vejo toda semana: diabetes descontrolado e corticoide por longo período. Açúcar alto muda a química da lente. Num diabético mal controlado, o risco pode ser duas a cinco vezes maior. Corticoide também salva vidas quando bem indicado e pode cobrar pedágio se você pingar demais. Cigarro também acelera o processo.

O tipo exato da atriz, ela não contou. Não vou inventar. O que ela contou importa mais: passou 10 anos achando que era só uma vista ruim, um problema que tinha tratamento.

Para tratar catarata sempre precisa de cirurgia?

A pergunta que você deve ter se perguntado: será que para tratar a catarata sempre precisará de uma cirurgia? Hoje catarata que atrapalha a vida se trata com cirurgia. Sim, sai o cristalino embaçado, entra uma lente artificial transparente.

Uma das operações mais feitas e mais seguras no planeta. Eu libero o risco cirúrgico todo dia e os pacientes voltam ótimos, lendo tudo. Muitos deixam os óculos de lado.

O novo colírio: o que foi anunciado

Agora a novidade. Em 14 de julho de 2026, a empresa anunciou que o primeiro participante americano recebeu o colírio experimental numa clínica em Petaluma, na Califórnia. Um colírio ligado à estratégia do lanosterol.

É um estudo duplo-cego randomizado, o padrão ouro na medicina. Objetivo declarado: frear a progressão e talvez recuperar a transparência, desembolar a proteína, descozinhar o ovo.

De onde saiu essa ideia?

De um estudo da Nature em 2015 e de famílias com uma catarata muito especial. Pesquisadores estudaram famílias em que as crianças nasciam com catarata congênita, acharam alteração numa enzima que fabrica lanosterol.

O raciocínio foi direto: se pouco lanosterol está ligado à proteína embolar, será que devolver o lanosterol desembolaria? No laboratório, grumos diminuíram. Em lentes de coelho, a transparência melhorou. Em cães com catarata de verdade, relataram lentes mais claras.

O mundo foi à loucura. Manchete de fim de cirurgia, a mesma manchete que aparece agora, 11 anos depois.

As quatro pedras no caminho

Aí veio a parte mais chata e mais preciosa da ciência. Outros grupos tentaram repetir e tiveram quatro pedras no caminho.

Primeira pedra: a repetição falhou

Pesquisadores colocaram 40 núcleos de cataratas humanas retirados de cirurgias reais em contato com o lanosterol. A opacidade não melhorou. Em 2019, outro time publicou na Scientific Reports testes com lanosterol e compostos parecidos em lente de rato e proteína humana. Também não clareou.

Segunda pedra: dificuldade de chegar lá dentro

A lente não tem vaso sanguíneo. O colírio precisa atravessar lágrima, córnea, o líquido da câmara anterior e entrar no cristalino na dose certa. Molhar a portaria é fácil, subir no último andar sem elevador é o problema.

Uma catarata humana de décadas é alvo muito mais duro que lente jovem de laboratório. Em 2025, na Nature Communications, cientistas usaram um mRNA para ensinar a própria lente a fabricar lanosterol. Funcionou em ratinhos, mas atenção: foi injetado, não pingado. São duas guerras completamente diferentes.

Terceira pedra: o número que falta

A empresa divulgou que num estudo exploratório lá na China, entre 50 e 86% dos pacientes chegaram a uma visão de 20/40, ou até melhor, após 12 a 24 semanas. Parece incrível, mas falta o número mais importante.

Como eles enxergavam antes, a visão melhorou? A catarata diminuiu, alguém adiou cirurgia por causa do colírio? Ainda não sabemos. É para isso que existe o novo teste pareado com placebo.

Quarta pedra: a vida real

Essa eu conheço. Quando chegou o colírio pra presbiopia, eu mesmo testei. Comprei nos Estados Unidos, pinguei durante semanas, algumas vezes ao dia. Não me adaptei, voltei pras lentes de contato.

Remédio que pede uso diário esbarra no que laboratório nenhum controla: a sua rotina. Cirurgia resolve numa única intervenção. Colírio, se funcionar, vira compromisso de longo prazo.

E o óleo de rícino do grupo da família?

Então pensa: se uma ideia com 11 anos de ciência ainda precisa provar entrega e efeito em gente, o que dizer do óleo de rícino do grupo da família? Tem vários vídeos fake que prometem: "pinga o óleo de rícino antes de dormir, a catarata dissolve. Os médicos não querem que você saiba".

O óleo comum age na superfície. Não existe evidência alguma de que ele alcance o cristalino em concentração capaz de desfazer catarata. Então, nunca pingue óleo nenhum de cozinha ou cosmético no olho. Não é estéril.

Colírio contaminado já deixou muita gente cega. Colírio, hein? Imagine óleo. Natural não quer dizer que está limpo.

O que realmente protege seus olhos

Começa pelo mais importante: exame oftalmológico regular, especialmente depois dos 40 anos. Não é só pela catarata, é pelo glaucoma e alguns problemas de retina que também embaçam a visão e parte disso só tem bom prognóstico quando descoberto cedo. A atriz Anne Hathaway passou 10 anos sem a resposta que um exame dava em uma tarde.

Evitar que as coisas piorem. Como eu já disse, cigarro: fumantes têm mais catarata e mais cedo. Parar de fumar protege lente e coração no mesmo pacote.

Diabetes: glicose alta por mais tempo é agressão acumulada na lente.

Outra coisa, muito sol, então tem que usar óculos escuro com proteção UV. Lente só escura, sem proteção, pode dilatar a pupila e facilitar a entrada de raios ultravioletas. Então, compre óculos de verdade, não vai comprar no camelô.

Corticoide, tanto oral quanto pingado. Eu sei que é um remédio essencial em muitas situações, mas uso longo pede acompanhamento médico, nunca suspenda por conta própria.

Que brilho era aquele que eu vi no cinema?

Lembra da lente? Sai o cristalino embaçado e entra uma lente intraocular artificial. Dependendo do material, iluminação e ângulo, essa lente pode devolver a luz de um jeito diferente do cristalino natural.

Depois de saber da cirurgia da Hathaway, cheguei a uma hipótese: aquele brilho poderia ser o reflexo de uma lente intraocular. Não dá para cravar em cena de filme. Iluminação, córnea, pós-produção também inventam brilho. Mas é uma explicação compatível com o que eu vi.

Existe outro fenômeno completamente diferente que às vezes aparece em fotos com flash. A pupila costuma devolver vermelho da retina. Se alguma coisa interrompe o caminho da luz, o reflexo pode voltar cinza ou branco.

Se você é idoso e viu que só os seus olhos estão opalescentes, procura um oftalmologista. Pode não dar diagnóstico, mas às vezes acende um alerta. Quem confirma é o médico, é o exame.

Exceção: reflexo branco repetido na pupila de uma criança. Não espere oftalmologista rápido. Em criança isso pode ser bem mais grave que catarata.

Será o fim da cirurgia?

Hoje não. Se a catarata já atrapalha a sua vida, não cancele a avaliação por causa de manchete. A cirurgia continua o tratamento comprovado: remove o cristalino embaçado, substitui por uma lente transparente.

Mas tem algo de verdade em curso. Depois de 11 anos de resultados contraditórios, um colírio finalmente entrou para testes em humanos. Vamos torcer de verdade.

Mesmo com o início dos testes em humanos, a verdade é uma só: ainda vamos levar anos, se não décadas de estudos rigorosos para ter certeza que esse colírio realmente funciona com segurança.

Se funcionar, o primeiro ganho talvez não seja acabar com a cirurgia, talvez seja adiá-la, segurar catarata inicial, comprar anos de visão. Isso sozinho já seria enorme.

E olha, se você toma algum remédio, existem erros que as pessoas cometem que podem cortar o efeito e causar algo grave.

André Wambier, cardiologista