VÍRUS NIPAH: Nova Emergência de Saúde Global?

West Bengal, Índia – Dezembro de 2025

Um paciente chega num hospital privado em Barasat, perto de Calcutá. Febre. Dor de cabeça. Os médicos tratam, mas ele piora. Rápido. Confusão mental. Convulsões. Em poucos dias, morto.

Duas semanas depois, dois enfermeiros do mesmo hospital começam a passar mal. Um homem e uma mulher, 25 anos os dois. Jovens. Saudáveis. Tinham cuidado daquele paciente.

13 de janeiro de 2026. O exame volta: Nipah. Um dos vírus mais letais que existem. Até 75% de quem pega, morre.

Era o primeiro caso em West Bengal em 19 anos. E agora, dois jovens profissionais de saúde lutando pela vida. O enfermeiro se recuperando. A enfermeira em estado crítico, em ventilação mecânica.

Quando essa notícia chegou no Brasil, eu recebi centenas de mensagens aqui no Youtube. "Dr. André, é a nova COVID? Vai chegar no nosso país? Devo me preocupar?"

E eu entendo o medo. Em 2020, muita gente disse que a COVID não chegaria. Que era exagero. Que era só uma gripezinha. Eu nunca disse isso. Eu sabia que viria. E veio.

Então por que hoje eu tô te dizendo que o Nipah é diferente? Porque a ciência mostra que é. E o próprio surto na Índia ilustra isso: 196 contatos rastreados, todos testados, todos negativos. Surto contido. Como aconteceu em mais de 90% dos surtos de Nipah nas últimas décadas.

O que é o Nipah e como ele mata

O Nipah foi descoberto em 1998, na Malásia, numa fazenda de porcos. Os trabalhadores começaram a adoecer. Febre. Dor de cabeça. Depois, encefalite. Inflamação no cérebro. Convulsões. Coma. Morte.

Os cientistas investigaram e descobriram a origem: morcegos. Não qualquer morcego. O Pteropus. Morcego-raposa. Um dos maiores morcegos do mundo, com envergadura de quase 2 metros. Ele carrega o vírus sem ficar doente.

Como o vírus passa pro ser humano?

Três formas principais:

Primeira: Você come uma fruta que o morcego mordeu. A saliva dele tem o vírus.

Segunda: Você bebe seiva de palmeira. Na Índia e Bangladesh, as pessoas coletam essa seiva à noite. O morcego vai lá, lambe, urina. Contamina tudo.

Terceira: Contato com pessoas doentes. Secreções. Saliva. Sangue. Foi assim que aqueles dois enfermeiros pegaram. Cuidando do paciente infectado.

O que o vírus faz no seu corpo

O Nipah é um vírus neurotrópico. Isso significa que ele tem afinidade pelo sistema nervoso. E os estudos mostram que ele usa estratégias sofisticadas pra chegar lá.

Há evidências de neuroinvasão e vasculite. Os mecanismos ainda estão sendo estudados. Mas o que se sabe é que o vírus consegue atravessar a barreira hematoencefálica – aquela proteção que impede que coisas entrem no seu sistema nervoso. O vírus encontra caminhos.

Uma vez no cérebro: destruição.

Os sintomas começam leves: febre, dor de cabeça, dor de garganta. Parece gripe. Depois de 3 a 5 dias: tontura, sonolência, confusão. A pessoa não sabe onde está. Não reconhece familiares. Depois: convulsões. Coma. Em 40% a 75% dos casos, morte. Em questão de dias.

E tem mais. Os que sobrevivem: cerca de 20% ficam com sequelas neurológicas. Convulsões recorrentes. Mudanças de personalidade. Problemas de memória.

E há relatos raros de algo ainda mais assustador: encefalite tardia. Casos incomuns, ainda pouco compreendidos pela ciência. Pessoas que se recuperaram completamente e anos depois – em alguns relatos mais de uma década – desenvolveram encefalite de novo. São casos raros, mas existem.

Por que o Nipah não vai causar pandemia

Deixa eu te contar sobre a onça-pintada e o mosquito da dengue.

A onça-pintada é o predador mais letal do Brasil. Quando ela ataca, a presa morre. Taxa de sucesso altíssima. Assustador, né?

Mas aqui vai um dado que vai te chocar. Sabe quantas pessoas a onça-pintada mata por ano no Brasil? Menos de 5.

Agora, o mosquito da dengue. Mata menos de 1% dos infectados. Parece inofensivo. Mas mata milhares todo ano.

Por quê? Porque você vê a onça chegando. Você corre. Ela é grande. Barulhenta. Rara. O mosquito? Te pica enquanto você dorme. Invisível. Silencioso. Em todo canto.

O Nipah é a onça do mundo dos vírus. A COVID era o mosquito.

O que mais assusta não é o que mais mata em escala. O Nipah é tão letal que é péssimo em se espalhar.

Os números falam por si

O Nipah foi descoberto em 1998. De lá pra cá, 27 anos. Sabe quantos casos no mundo inteiro? Entre 700 e 800. No mundo todo. Em quase 3 décadas.

Quer comparar? A COVID fez isso em horas. Em um único dia de pico, a COVID infectava mais gente do que o Nipah infectou em 27 anos.

Por que essa diferença absurda? O R0.

R0 é quantas pessoas, em média, cada infectado contamina. Se o R0 é 2, cada doente passa pra 2 pessoas. Se é 3, passa pra 3.

A COVID original tinha R0 de quase 3. E o Nipah? As estimativas de R0 para o Nipah estão tipicamente abaixo de 1. Os valores variam conforme o cenário – se é em hospital, na comunidade, em diferentes surtos. Mas em geral, fica abaixo de 1.

Isso significa que as cadeias de transmissão tendem a se extinguir sozinhas. Sem amplificação sustentada.

Por que o R0 é tão baixo?

Porque mata muito. A pessoa fica tão doente, tão rápido, que não consegue sair espalhando. Ela tá no hospital. Ou em casa. Ou morta. O vírus é letal demais pro próprio bem dele.

A COVID fazia o oposto. Transmissão assintomática massiva. Você pegava, ficava bem, ia pro trabalho, pro mercado, pro churrasco. Espalhando sem saber.

O Nipah? Se você pegou, em poucos dias você tá com febre alta, confusão mental, convulsão. Não vai pra lugar nenhum.

Lembra dos dois enfermeiros na Índia? Eles tiveram contato direto com sangue e secreções do paciente. E mesmo assim: 196 outros contatos. Todos testados. Todos negativos. É assim que o Nipah costuma se comportar. Alta letalidade. Baixa transmissibilidade.

Por que o Brasil está protegido

Lembra do morcego-raposa? O Pteropus? Aquele que carrega o vírus? Ele não existe aqui.

O Pteropus vive na Ásia, Oceania, Ilhas do Pacífico. Índia, Bangladesh, Malásia, Indonésia, Austrália. Sabe onde ele não existe? Américas. Europa. África continental.

O Brasil tem uma barreira ecológica natural contra o Nipah. O principal reservatório do vírus simplesmente não existe no nosso continente.

E tem mais. Na Índia e Bangladesh, existe uma tradição de beber seiva de palmeira – aquela que o morcego contamina. No Brasil? Ninguém faz isso. Não existe essa tradição. Não existe o morcego. Não existe a rota de transmissão.

Ter medo de pandemia de Nipah no Brasil é como ter medo de ataque de urso polar em Brasília. O animal simplesmente não existe aqui.

E não sou só eu falando. O Ministério da Saúde do Brasil já se pronunciou: não há indicação de risco para a população brasileira. A OMS também: risco de disseminação internacional é baixo.

E se o vírus mutar?

Boa pergunta. Pode acontecer? Em teoria, sim. Vírus mutam.

Mas em 27 anos de observação, não houve mudança significativa no padrão de transmissão. E mais: não é que o vírus escolhe mutar de forma vantajosa. Mutações são aleatórias. A maioria é neutra ou prejudicial ao próprio vírus.

Olha a diferença entre 2020 e agora:

Em janeiro de 2020: zero conhecimento sobre a COVID. R0 desconhecido. Transmissão assintomática desconhecida. Nenhum histórico de surtos. Passava pelo ar. Então eu sabia que viria.

Em janeiro de 2026: temos 27 anos de dados sobre o Nipah. Estimativas de R0 consistentemente abaixo de 1. Transmissão assintomática rara. Mais de 20 surtos documentados, mais de 90% contidos com medidas de vigilância e controle.

A diferença: o Nipah não é novidade. É um vírus conhecido. Estudado. E com padrão de comportamento bem estabelecido.

3 sinais concretos para você monitorar

Sinal número 1: Estimativas de R0 subindo acima de 1 de forma consistente. Se você começar a ver notícias de que cada infectado tá passando pra mais de uma pessoa, aí o padrão muda. Historicamente, isso não aconteceu.

Sinal número 2: Transmissão assintomática confirmada em escala relevante. Se descobrirem que pessoas sem sintomas estão espalhando o vírus de forma significativa. Aí sim, atenção.

Sinal número 3: Casos fora da Ásia sem histórico de viagem. Isso significaria transmissão local em continente novo. Até hoje, não aconteceu.

Enquanto não vir esses três sinais, o Nipah é problema da Índia e Bangladesh. Não nosso. É uma doença terrível. Pra quem pega, é devastador. Mas com base em tudo que sabemos até agora, não vai virar pandemia. E não vai chegar aqui de forma sustentada.

Resumindo

O Nipah é um vírus brutal. Pode matar até 75%. Ataca o sistema nervoso. Deixa sequelas. Em casos raros, pode reaparecer anos depois.

Mas é letal demais pra se espalhar de forma sustentada. Não tem o morcego reservatório no Brasil. Não tem a rota de transmissão. E em 27 anos, mais de 90% dos surtos foram contidos.

Aqueles dois enfermeiros na Índia? Heróis. Se arriscaram pra cuidar de alguém. E pagaram o preço. Mas o surto parou ali. 196 contatos. Nenhum caso novo. É assim que o Nipah costuma se comportar.

Não vai chegar aqui.

André Wambier, cardiologista