Este Germe causa CÂNCER de estômago

Uma terça-feira de manhã. Julho de 1984. Austrália.

Um médico de 32 anos está sozinho num laboratório. Nas mãos, um béquer - aquele copo de vidro usado em laboratório com um líquido marrom e turvo lá dentro. Bilhões de bactérias vivas.

Todo mundo disse que era impossível. Que bactéria não sobrevive no estômago. Que o ácido mata tudo.

Se ele estivesse errado… nada ia acontecer. Se estivesse certo… ele ia destruir o próprio estômago — e talvez mudasse tudo que entendíamos sobre úlcera.

Ele disse: “Bem, aí vai…” E virou o béquer de uma vez.

Aquele gole rendeu a ele o Prêmio Nobel de Medicina.

E se você tem gastrite, refluxo, ou já tomou antiácido por meses… essa história tem tudo a ver com você.

Neste post eu vou te contar a história do homem que bebeu bactérias pra provar a cura. A história da H. pylori, da gastrite, e de como a medicina estava errada por décadas.

A Máfia do Ácido

Nos anos 80, o medicamento mais vendido do mundo não era pra coração. Não era pra diabetes. Era pra ÚLCERA.

Tagamet. O PRIMEIRO medicamento da história a faturar 1 bilhão de dólares num único ano. Logo veio o Zantac. Juntos: mais de 8 bilhões por ano.

E a base de todo esse império? Uma ideia simples: estresse causa úlcera. “Você tem úlcera porque trabalha demais. Porque come apimentado. Porque é ansioso.”

Tratamento? Antiácido. Todo dia. Pro resto da vida. O paciente virava cliente permanente.

E o próprio Barry Marshall chamou isso de “Máfia do Ácido”. O termo é dele. Farmacêuticas bilionárias, congressos, artigos, carreiras inteiras — tudo apoiado numa hipótese errada.

Tinha de tudo: desde gente bem-intencionada presa ao que aprendeu na faculdade, até quem realmente não queria perder um negócio bilionário.

E aí aparece um jovem médico australiano dizendo que tudo isso era mentira.

Os Heróis da História

Barry Marshall tinha 29 anos. Residente no Royal Perth Hospital. Precisava de um projeto de pesquisa. Foi aí que ele conheceu Robin Warren — um patologista que tinha visto algo estranho no microscópio.

Em amostras de estômago de pacientes com gastrite e úlcera, ele encontrava bactérias. Em forma de espiral. Na maioria dos casos.

O problema? NINGUÉM acreditava. Por quê? Porque todo livro de medicina dizia: “O estômago é estéril.” O ácido do estômago — pH 1 a 2, mais ácido que suco de limão — mata qualquer bactéria. Nada sobrevive ali.

Mas a H. pylori tinha um truque. Ela produz uma enzima chamada UREASE. E aqui vem a parte bioquímica, simples e poderosa: essa enzima transforma UREIA em AMÔNIA.

A ureia existe naturalmente no estômago. E a amônia funciona como um “guarda-chuva químico”. Ela neutraliza o ácido ao redor da bactéria. Cria uma bolha protetora. Um escudo invisível. É como se a bactéria carregasse seu próprio antiácido particular.

Por isso ela sobrevive onde nenhuma outra bactéria consegue.

Robin tentou falar com vários médicos. Ninguém deu atenção. Até que Barry ouviu, ficou curioso, e decidiu investigar.

Juntos, Barry e Robin analisaram 100 pacientes. E os números eram absurdos: Úlcera duodenal: 100% tinham a bactéria. Úlcera gástrica: 77% tinham. Gastrite: praticamente todos.

Conclusão revolucionária: úlcera não é causada por estresse. É causada por uma BACTÉRIA. E se é bactéria… pode ser curada com antibiótico.

Pensa nisso. Se Marshall estivesse certo, você trocaria ANOS de antiácido por DUAS SEMANAS de antibiótico. E fim de úlcera. Sem remédio pro resto da vida. Sem cliente permanente.

Imagina como a “Máfia do Ácido” recebeu essa notícia.

Barry apresentou isso na Sociedade Gastroenterológica da Austrália, em 1983. Resultado? Colocaram o trabalho dele nos PIORES 10% do congresso. Um trabalho que ia ganhar o Nobel… considerado lixo.

E o Marshall escreveu depois uma frase perfeita: “O entendimento médico sobre úlceras era como uma religião. Nenhuma quantidade de lógica ia mudar o que as pessoas sabiam ‘no coração’ ser verdade.”

A Decisão Extrema

Por que os gastroenterologistas não queriam ouvir? Primeiro: orgulho. Décadas de carreira baseadas numa teoria. Segundo: dinheiro. Bilhões de dólares por ano em jogo. Terceiro: ceticismo… que às vezes vira teimosia.

Barry tentou publicar no Lancet. Rejeitado. Tentou infectar porcos pra provar. Não funcionou.

Então ele tomou uma decisão: Se em animais não dava certo… ia testar em si mesmo.

Ele fez endoscopia primeiro. Estômago saudável. Sem bactérias. Confirmado.

Aí foi pro laboratório. Pegou uma cultura de H. pylori de um paciente com úlcera. Misturou num béquer com caldo de carne. E bebeu.

Sem avisar a esposa. Sem comitê de ética. Sem permissão do hospital.

Nas palavras dele: “É mais fácil pedir perdão do que permissão.”

E ele esperou.

Agora imagina isso: seu corpo virando laboratório.

Dias 1 a 4: nada. Dia 5: começou a vomitar. Acordava de madrugada com náusea. Dia 6: hálito horrível. Tão ruim que os colegas mudaram de sala. A mãe comentou. A esposa comentou. Dia 8: nova endoscopia. O estômago que estava perfeito agora tinha uma inflamação HORROROSA. Gastrite severa. E a bactéria? Presente. Colonizando tudo. Dia 14: antibióticos. Resultado? Curado.

E aqui entra uma coisa genial. A microbiologia tem uma espécie de “checklist do crime perfeito”: os Postulados de Koch, de 1884. A lógica é simples: Tem que achar a bactéria nos doentes. Cultivar em laboratório. Provar que ela causa doença num saudável. E depois achá-la de novo nesse doente.

Marshall ticou os 4 itens. A prova era irrefutável.

Você acha que depois disso todo mundo acreditou? Pensa de novo.

Barry foi pros EUA em 1985. Conseguiu bolsa na Universidade da Virginia. Achava que ia ficar 2 ou 3 anos. Ficou 10.

E os céticos tinham um argumento que parece forte: “Se a bactéria causa úlcera, por que tanta gente tem e NÃO tem úlcera?”

Pergunta válida. Mais de 50% da população mundial tem H. pylori. Nem todo mundo desenvolve úlcera ou câncer.

Mas Marshall insistiu. Fez mais estudos. Desenvolveu teste de respiração. E as evidências foram se acumulando. Estudos independentes. Diferentes países. Diferentes populações.

Até que veio a virada. Em 1994 — DEZ ANOS depois — o NIH finalmente reconheceu: “Úlcera deve ser tratada com antibiótico.”

A “Máfia do Ácido” tinha perdido.

E em 2005 — VINTE E UM ANOS depois de beber as bactérias — Barry Marshall e Robin Warren ganharam o Prêmio Nobel de Medicina.

Vinte e um anos. Da humilhação ao reconhecimento máximo. Esse é o tempo que às vezes leva pra verdade vencer.

Antes dessa descoberta, úlcera era tratada como doença crônica. Antiácido pro resto da vida. Cirurgia nos casos graves. Milhares de dólares por ano.

Depois dessa descoberta, úlcera virou uma coisa diferente: uma INFECÇÃO. Tratamento: 1 a 2 semanas de antibiótico. Custo: dezenas de dólares. Resultado: CURA.

Mas não para por aí. A OMS classificou a H. pylori como carcinógeno Classe 1 — na mesma categoria do cigarro.

E um estudo de 2025 mostrou que 76% dos cânceres de estômago são causados por H. pylori.

Pensa no peso disso: É como se, a cada 4 pessoas com câncer de estômago, 3 tivessem começado com uma bactéria que poderia ter sido tratada. Milhões de casos preveníveis nas próximas décadas… se tratarmos a bactéria.

E aqui vem uma ironia histórica. Lembra do Zantac? O antiácido mais vendido do mundo? Em 2020, a FDA mandou retirar do mercado. O princípio ativo — ranitidina — pode formar uma substância associada a câncer com o tempo.

E aqui é MUITO importante pra não virar desinformação: isso NÃO significa que “antiácido causa câncer”. O problema específico foi com a RANITIDINA. Outros medicamentos como Pepcid e Nexium continuam sendo considerados opções seguras quando bem indicadas. E, claro: sempre com orientação médica.

Mas a ironia permanece: o remédio vendido porque “úlcera não tinha cura” foi retirado do mercado… enquanto a cura real — antibiótico barato — foi ridicularizada por anos.

A boa notícia: hoje sabemos tratar. A má notícia: estamos estragando essa vitória.

Abuso de antibiótico. A H. pylori está ficando mais esperta. Resistência à claritromicina já chega a 30 a 50% em algumas regiões.

Por isso, se você for tratar, converse com seu médico sobre o melhor esquema pro seu caso.

E agora vem a parte prática. O que isso significa pra VOCÊ?

Primeiro: se você tem gastrite crônica, refluxo persistente, ou histórico de úlcera — pergunte ao seu médico sobre H. pylori. Teste de fezes ou teste respiratório são os melhores pra detectar infecção ativa.

Segundo: nem todo médico está atualizado. Eu vejo isso no consultório. Pacientes tomando antiácido há ANOS sem nunca terem sido testados.

Terceiro: questione. A história do Marshall ensina uma coisa dura: até a medicina pode estar errada. Consensos podem ser derrubados.

Barry Marshall era um médico jovem de uma cidade pequena da Austrália. Contra ele: indústria bilionária, establishment médico, séculos de dogma.

E o que ele fez? Bebeu bactérias. Ficou doente de propósito. E provou que estava certo.

Hoje, graças a ele e a Robin Warren, úlcera não é mais uma sentença de tratamento eterno. É doença curável.

A ciência venceu. E sempre vai vencer.

Meu nome é André Wambier, cardiologista. Muito obrigado!