Você Passou a Dormir com 2 TRAVESSEIROS? Ele Só Escapou Porque GANHOU um CORAÇÃO Novo!
Olá. Um restaurante cheio, todo mundo na mesa já estava comendo. O prato dele finalmente chegou por último, fumegando, cheiroso.
Ele pega o garfo e o celular toca. Ele quase deixou para lá até ver o número. O número que ele esperava havia 4 meses.
Do outro lado, uma enfermeira. "O senhor está em jejum?" Ele olha pro prato.
"Ainda estou. Por enquanto." Ele salivava.
"Então não coma nada. Apareceu um coração 100% compatível com você. Vem agora."
Como ele chegou àquela mesa
Eu preciso contar como um homem de pouco mais de 50 anos chegou naquela mesa. Ele era cuidadoso, rígido com remédio, com comida, com consulta. Sobreviveu a dois infartos.
O primeiro fez um estrago pequeno, o segundo o colocou numa fila de transplante de coração. E olhando para trás, o corpo dele tinha avisado duas vezes. Primeiro, antes do infarto, três sinais que dava para ver nele.
E ele não viu, enquanto a aterosclerose trabalhava em silêncio. Depois, por dentro, sete sintomas que você sente quando o coração começa a perder força. E no final eu volto àquele restaurante e te conto o que aconteceu depois.
O primeiro infarto: a aterosclerose que não dói
Vamos lá. Ele chegou ao meu consultório como chegam tantos outros. Infarto tratado, artéria aberta, alta hospitalar, uma sacola de remédios.
Não fumava, não era obeso e até o dia do infarto acreditava que não tinha doença nas artérias coronárias. E aterosclerose é assim: cresce 20, 30 anos sem dar uma dor. Você descobre quando a placa rompe e a artéria fecha.
Só que dizer que o corpo não avisou não é verdade. Depois do infarto, eu olhei para ele com outros olhos e achei três pistas do lado de fora. Nenhuma doía, nenhuma tinha nome para ele.
Você confere as três no espelho hoje. O que eu vi nele? Três sinais.
Sinal 3: o anel branco no olho (arco corneano)
Sinal número três: o anel no olho. Olha no espelho. Tem um anel branco acinzentado na borda da parte colorida do olho?
Isso é arco corneano. Depois dos 70 é comum e faz parte do envelhecimento normal. Antes dos 45 muda de significado.
Pode ser colesterol muito alto, às vezes aquele colesterol de família que a pessoa já nasce produzindo no fígado. Num jovem, aquele círculo branco é o colesterol deixando assinatura no olho antes de deixar cicatriz no coração. Ele tinha, bem levinha.
Ninguém tinha reparado, nem ele. Viu cedo? Calma, não entra em pânico.
Faz o exame de colesterol.
Sinal 2: a canela sem pelo
Sinal número dois: a perna sem pelo. Compare as duas pernas. O pelo da canela sumiu?
A pele ficou lisa, brilhante e fria? A pele dele estava assim e ele tinha uma explicação: "É o roçar da calça, doutor." Não era.
Os pelos precisam de sangue para crescer. Quando o sangue chega mal por muito tempo, pelo, pele e unha começam a mostrar. A canela fica lisa, como se tivesse sido depilada.
E quem tem aterosclerose na perna não tem doença de perna, tem aterosclerose, tem entupimento. A mesma aterosclerose que estava na coronária dele. Calça não depila ninguém.
Sinal 1: a dobra na orelha (sinal de Frank)
E agora o sinal que fez 14 milhões de pessoas olharem pra própria orelha. Sinal número um: o sinal de Frank. Depois desse vídeo você vai olhar as orelhas das pessoas.
Olha o lóbulo, a parte mole. Tem uma dobra diagonal atravessando? Nos anos 70, um médico chamado Sanders Frank percebeu que os pacientes dele com dor no peito tinham essa prega.
Ficou "sinal de Frank". E esse ano o assunto voltou do pior jeito. O influenciador Henrique Maderite morreu de infarto fulminante aos 50 anos.
Nas fotos dele, a dobra estava lá anos antes. Não é diagnóstico, hein? Tem gente com vinco e artéria limpa, e muita gente com coronária entupida tem orelha lisa.
Mas o número brasileiro é esse: a Faculdade de Medicina da UNESP, em Botucatu, pegou 110 homens que fizeram cateterismo e olhou a orelha de cada um. Entre os que tinham artéria entupida, seis em cada 10 tinham essa dobra. Entre os que não tinham, três em cada 10.
E quando a dobra do lóbulo vinha junto com uma segunda prega na frente da orelha, perto do buraco: nove em cada 10 pessoas. Noventa por cento. Então, quanto mais jovem, mais a dobra vale.
Aos 80, pode ser só idade. Aos 40 ou 50, junto com pressão alta, diabetes, colesterol, cigarro ou família com histórico de infarto, eu quero saber o resto da história. Eu falei dessa orelha no vídeo mais visto do meu canal.
Mais de 14 milhões de pessoas assistiram. Isso foi antes de o Henrique Maderite morrer. 14 milhões viram, e ele não.
A gente fala e não chega em todo mundo. É por isso que eu peço toda vez para você compartilhar o vídeo. Não é pelo canal, é porque alguém que você conhece está com essa dobra na orelha agora e não vai assistir a esse vídeo se você não mandar.
Então compartilhe. E a orelha do meu paciente tinha o vinco há quanto tempo? Anos.
Um anel leve no olho, a canela lisa e a dobra na orelha. Ninguém sabia que ele tinha aterosclerose, mas o corpo dele sabia.
Os avisos de antes: escada e costas
E por dentro, antes do primeiro infarto, ele já sentia um cansaço novo na escada, que ele culpava por estar sedentário, e uma dorzinha nas costas, que ele culpava a cadeira do trabalho. Depois do infarto, aquela dor passou a ter outro significado. Podia ser angina aparecendo fora do peito: o coração pedindo sangue e a dor saindo pelo lugar errado.
Foi mais ou menos assim, escada e costas, até o dia que a artéria fechou. Esses eram os avisos de antes. Os de depois são os que vêm agora.
E foram esses que fecharam a janela dele.
O que acontece com o coração depois do infarto
Veja bem: sobreviver a um infarto não é voltar ao dia anterior. Parte do músculo morre. A cicatriz não contrai.
O que sobrou trabalha pelos dois. Em muita gente, com tratamento, a função recupera bastante. Em outros, começa uma doença crônica chamada insuficiência cardíaca.
E eu aprendi o que essa doença significa numa noite em São Paulo.
A noite no Dante Pazzanese
Eu era um jovem residente, R1, no plantão do Dante Pazzanese, que é hospital público. Naquela UTI tinha um menino de 16, 17 anos, cardiopatia congênita, e estava entubado, inchado. A mãe sentada ao lado, chorando e rezando.
O coração dele quase não mantinha mais a circulação. Os monitores ficavam apitando a toda hora. Noradrenalina segurando a pressão, dobutamina obrigando aquele coração a contrair um pouco mais forte.
Pouco mais de 20 anos atrás disso. Nossas armas naquela época eram bem menores que as que a gente tem hoje. A mãe levantou da cadeira e falou para mim baixinho, para ele não ouvir: "Doutor, eu sei que ele não tem mais cura, mas faça o máximo que o senhor puder."
E eu pensei: esse menino não morre no meu plantão. Passei a noite em cima dele: dose, pressão, urina, monitor, e conversando com aquela mãe. Amanheceu, ele estava vivo.
Naquela tarde eu soube: tinham levado o menino pro transplante. E foi ali que eu entendi: na insuficiência cardíaca grave, o que importa é a janela. Enquanto ela ainda está aberta, remédio, aparelho, tratamento ganham tempo.
Às vezes muitos anos. Quando ela fecha, resta uma última porta: outro coração. E era para essa porta que o meu paciente estava caminhando.
Bomba fraca ou bomba dura: os dois jeitos de o coração falhar
Só uma coisa antes da segunda lista: existem dois jeitos de o coração falhar. O primeiro, a bomba fraca, causada por um infarto, miocardite, Chagas, álcool, algumas quimioterapias, válvula, doença congênita, como a do paciente. O músculo perdeu força.
O segundo parece estranho. A bomba aperta bem, mas ficou dura, não volta. Pensa numa panela de 1 litro em que você passou cimento nas paredes.
Ela continua firme, mas cabe muito menos água. Pressão alta por anos, diabetes, obesidade, idade fazem o coração ficar duro. É a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada.
É a daquela senhora de 65 anos que nunca infartou, que toma remédio de pressão há 20 anos, e o ecocardiograma dela pode vir com "força preservada". Bomba fraca ou bomba dura: os sintomas podem ser praticamente os mesmos.
Os 7 sintomas de insuficiência cardíaca que você sente
Vamos à segunda parte: os sete sintomas que você sente, ou pelo menos que sentiu.
Sintoma 7: a escada mudou
Sintoma número sete: a escada mudou. Subir um lance de escada ficou mais difícil do que há seis meses? Carregar compras virou exercício?
Você começou a parar no meio sem perceber? Ele chegou à primeira consulta dizendo: "Estou meio cansado, doutor. Deve ser falta de exercício."
50 anos. Antes do infarto não parava naquela escada. A escada não tinha mudado, o coração tinha.
Cada batida manda menos sangue e a reserva diminui. Primeiro no esforço, depois nas tarefas pequenas. Cansaço tem dezenas de causas, mas cansaço novo depois do infarto, primeiro eu tenho que ter certeza de que não é coração.
Sintoma 6: o travesseiro a mais
Sintoma número seis: o travesseiro a mais. Quantos travesseiros você usa? Um, dois, três?
Começou a dormir mais sentado? A esposa dele percebeu antes dele: "Doutor, ele está dormindo quase sentado." Deitado, o sangue das pernas volta pro tórax.
Coração que não dá conta desse volume represa lá no pulmão. Falta ar, você senta, melhora. E coloca outro travesseiro, sem chamar aquilo de sintoma.
O corpo inventou uma posição para conseguir respirar.
Sintoma 5: a tosse que virou gripe
Sintoma número cinco: a tosse que virou gripe. Tosse por semanas, pior deitado, junto com falta de ar? Uma paciente minha tomou xarope atrás de xarope para uma gripe que não acabava.
Era água no pulmão, claro. Tosse sozinha não é coração. Tosse mais falta de ar, pé inchado, dificuldade para deitar muda a conversa inteira.
E secreção espumosa, rosada, com falta de ar forte: isso é emergência. É edema agudo de pulmão.
Sintoma 4: acordar sufocado
Agora, sintoma número quatro: acordar sufocado. Duas da manhã, você acorda de repente sem ar, senta na cama, levanta, vai até a janela, depois de alguns minutos melhora. Ele dizia: "Deve ser ansiedade depois do infarto."
Fazia sentido, mas não é, né? É o pulmão que encheu deitado. O travesseiro era o aviso.
Acordar sufocado, a dispneia paroxística noturna, era o aviso aumentando de volume.
Sintoma 3: o xixi da madrugada
Sintoma número três: o xixi da madrugada. Esse é rápido. Começou a levantar muito mais à noite para urinar?
Todo mundo pensa em próstata, em bexiga. Muitas vezes é, mas em quem também tem perna inchada e falta de ar, tem outra explicação: o líquido que ficou na perna o dia inteiro volta pra circulação quando você deita, o rim recebe tudo aquilo e você urina. Sozinho, xixi noturno não diz coração.
Junto com os outros, fecha o quebra-cabeça.
Sintoma 2: dois quilos que não são gordura
Sintoma número dois: 2 kg que não são gordura. A balança subiu 2 kg em poucos dias sem mudar a comida? O tornozelo inchou, a barriga cresceu, fica cheio com três garfadas?
Isso pode ser edema. Aperta a canela com o polegar por 5 segundos, solta. Ficou uma covinha que demora para sumir?
É o sinal do cacifo. Na terceira consulta, ele estava alguns quilos acima do peso e com as pernas inchadas. Não tinha comido 3 kg de comida: estava retendo água.
Sintoma 1: a dor no peito
Sintoma número um: a dor. Dor no peito não é sintoma de insuficiência cardíaca. No caso dele foi pior: era a doença nas coronárias ainda ativa.
Peso no peito, aperto, queimação, dor que caminha pro braço, pescoço, mandíbula ou costas, com suor, enjoo, fraqueza ou falta de ar. Depois do primeiro infarto, ele teve um segundo, maior. O primeiro tinha deixado uma cicatriz pequena.
O segundo destruiu boa parte do músculo que ainda funcionava. "Mas, doutor, ele tomava os remédios?" Tomava.
"Fazia dieta?" Fazia. "Não fumava?"
Não. E é por isso que essa história importa. Tratamento reduz muito o risco, mas não zera.
Quando olhei aquele segundo ecocardiograma, lembrei do menino do Dante Pazzanese.
Ele chegou cinza: o baixo débito
Depois do segundo infarto, ele entrou no consultório com uma cor que eu nunca esqueço. Não era pálido, não era amarelo: era cinza, cor de cimento, lábios sem cor, mãos frias apesar do calor, e a veia do pescoço que saltava antes de ele sentar. E ele estava diferente, mais lento.
Começava a frase, se perdia. Isso é baixo débito. O coração manda tão pouco sangue que o corpo começa a economizar.
A circulação não vai ficar boa na pele, nas mãos, no intestino. Isso tudo fica para depois. Quando nem o cérebro recebe o suficiente, vem a confusão.
Pele fria, cor de cimento, pressão baixa, confusão, falta de ar: a conversa não é consulta daqui a 15 dias, é urgência. A janela dele estava quase fechada.
Tentei de tudo: os quatro pilares do tratamento
E olha, eu tentei de tudo. Hoje nossas armas são muito melhores do que naquela época do Dante Pazzanese. Hoje existem quatro famílias de remédios que, usadas juntas nos pacientes certos, mudam a história da bomba fraca.
Algumas aliviam o trabalho do coração, outras bloqueiam hormônios que fazem a doença avançar, e uma delas nasceu do diabetes e acabou virando também tratamento de coração. Com líquido acumulando, aumento o diurético. Em certos pacientes, aparelho: o ressincronizador, que faz as partes do coração voltarem a contrair juntas.
A maioria sai pelo SUS. Ele recebeu tudo que cabia: as quatro famílias e mais diurético, até coenzima Q10 em dose alta, que tem estudo mostrando que pode funcionar. Ajuste atrás de ajuste, e o coração continuava perdendo força, e ele cada vez mais cinza.
Até que sentei na frente dele: "A gente chegou num ponto em que o remédio não vai ser suficiente. O seu caso é de transplante, e a gente não pode deixar isso passar."
A última porta: o transplante de coração
Em mais de 600 vídeos, eu nunca falei de transplante cardíaco. Presta atenção numa coisa: transplante não é desistir. É o tratamento da insuficiência cardíaca avançada, quando as outras opções já não seguram o paciente.
No Brasil existe o Sistema Nacional de Transplantes. Não é fila de padaria, em que ganha quem chegou primeiro. Entram compatibilidade, gravidade, características do doador e do receptor.
O Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo. É pra gente se alegrar. 95% é pelo SUS.
O coração que chega para quem ganha R$ 2.000 é o mesmo que chega para quem ganha R$ 100.000 ou R$ 1 milhão de reais por mês. Ou pelo menos era para ser assim. E tem uma parte estranha na vida da fila: o telefone precisa estar perto.
Porque o coração não avisa que vai aparecer terça-feira às 4 da tarde. A ligação pode vir no almoço, de madrugada, num domingo ou num restaurante.
Três perguntas: risco, consulta ou urgência?
Agora, antes do telefone, três perguntas. Eu pergunto, você responde. Eu quero que você separe risco de urgência.
Primeira: você viu em você algum dos três sinais dele? Anel no olho antes da hora, canela sem pelo, dobra na orelha? Isso não diz que você vai infartar.
Diz: mede seu colesterol, afere a sua pressão, sua glicose, e olha quem infartou na sua família. Segunda pergunta: existe cansaço novo, dificuldade para deitar, acordar sufocado, inchaço, peso subindo rápido? Principalmente em quem já infartou, isso é consulta esse mês, com os exames que eu vou te dizer daqui a pouco.
Terceira: dor no peito, falta de ar em repouso, desmaio, confusão, pele fria e cinza, piora súbita? Aí não é pra esperar, é urgência hoje. A terceira passa na frente das outras duas.
E o número, para você entender por que eu insisto tanto nisso: pelo menos 2 milhões de brasileiros vivem com insuficiência cardíaca. Quando eu era interno, metade morria em 5 anos. Era pior que muito tipo de câncer.
De lá para cá, a cardiologia virou outra. O infarto passou a ser aberto na hora, com stent, em vez de esperar o músculo morrer. Chegaram remédios novos para a bomba fraca, do Entresto ao Forxiga e ao Jardiance.
Marca-passo, ressincronizador, desfibrilador que a pessoa carrega no peito. E a gente aprendeu a começar tudo isso cedo, antes de a janela apertar. Hoje eu seguro a maioria dos meus pacientes com remédio durante anos, muitos anos.
O meu paciente do restaurante foi exceção, não a regra. Descobrir cedo é o que coloca você na regra.
Os três exames que descobrem cedo
Os três exames: nenhum dói. O primeiro nem é do coração, é do terreno que produz a doença: colesterol, triglicerídeos, glicose. Um furinho.
O segundo é o ecocardiograma: aquele gel no peito, ultrassom, sem agulha, 20 minutos, aquele barulho. Mostra o tamanho das câmaras cardíacas, as válvulas, o movimento do músculo e a fração de ejeção, que é a força do coração. Abaixo de 40%, a bomba está fraca.
E lembra da panela: acima de 50 não quer dizer que não exista insuficiência cardíaca. Existe coração que aperta mas não enche. E o terceiro é o BNP.
Outro furinho, exame de sangue. Quando o coração está sob estresse, esse marcador sobe. Valor baixo torna insuficiência cardíaca improvável.
Valor alto, o médico interpreta junto com idade, rim, peso e o quadro. Os três existem no SUS. Se você já infartou ou está com esses sintomas, conta isso no posto.
A equipe avalia e encaminha os exames que forem necessários. O direito existe. A vergonha de pedir não pode roubar o resultado.
São exames muito menos assustadores do que a doença que eles descobrem cedo. E descobrir cedo muda tudo.
O restaurante: o telefone tocou
O restaurante. 4 meses depois de entrar na fila do transplante, o telefone tocou. Ele estava naquele restaurante, mesa inteira comendo.
O prato dele chegou por último, cheiroso, garfo na mão, e o telefone: "O senhor está em jejum?" Ele largou o garfo, empurrou o prato, levantou, chorou com a esposa e foi pro hospital. Hoje ele está vivo.
Não está mais cinza, tem uma cicatriz grande no peito, mas está vivo. E ainda falta eu te contar uma coisa.
O menino do Dante
E o menino lá do Dante? Seis meses depois daquela noite de plantão, eu estava no ambulatório de transplante. Entrou um menino magro, bonito, 16, 17 anos.
Passaria despercebido em qualquer shopping. A única coisa diferente era a cicatriz no peito. Eu demorei alguns segundos.
A mãe me reconheceu antes: "Doutor, lembra da gente?" Era ele, o menino entubado, inchado, que eu passei a noite tentando manter vivo. A mesma mãe que tinha me dito "eu sei que ele não tem cura" falou: "Se ele não tivesse passado daquela noite, não tinha chegado ao transplante."
Isso faz mais de 20 anos. Eu não sei onde ele está. Não sei se ele está vivo. Espero que sim.
Foi ele quem me ensinou o que eu só entenderia por inteiro muitos anos depois, naquele restaurante: na insuficiência cardíaca avançada, você não precisa vencer a doença naquele dia. Você precisa manter a janela aberta até a próxima porta aparecer.
O corpo avisa duas vezes
A frase para você levar pro almoço: o corpo avisa duas vezes. Primeiro por fora: no olho, na canela, na orelha. Depois por dentro: no esforço, no travesseiro, na dor.
Se você conhece alguém que já infartou, tem diabetes, pressão alta, uma família com problema cardíaco, manda esse vídeo. O outro chegou a 14 milhões de visualizações e, mesmo assim, não chegou para todo mundo. Talvez esse chegue a uma pessoa antes do infarto, antes do segundo infarto, antes de ficar cinza, antes de o telefone precisar tocar.
Meu nome é André Wambier, cardiologista. Que o coração de quem você ama aguente muitos e muitos anos, e que aquele telefone nunca precise tocar.