TONTURA: E se NÃO For Labirintite? Este COMPRIMIDO Está Piorando TUDO!
Sua mãe levanta do sofá e para
Olá. Sua mãe levanta do sofá e para. Fica ali segurando no braço da poltrona, olhando pro nada. 3 segundos, aí segue como se nada tivesse acontecido. Ou é você que levantou da cadeira depois do almoço e o chão veio, e a casa inteira já tem a explicação pronta: é labirintite dela.
Eu sou cardiologista e tem uma coisa que ninguém nunca diz pra sua família: quase nunca é labirintite. Hoje eu te mostro as sete coisas que se escondem atrás desse nome. Até o final você vai saber qual delas é a sua, qual exame pedir e quando não pode esperar.
Uma delas começa a história que mata um em cada quatro idosos que caem. Outra responde a pergunta que eu mais escuto: "Doutor, eu tomo remédio há anos e a tontura nunca passou. Por quê?" E no meio do vídeo, a frase que descobre se aquela crise antiga era labirintite mesmo. E no fim, três perguntas que dizem se a sua é urgente ou não.
Antes da primeira, um teste de um segundo. Fecha o olho e lembra da sua última tontura. Se o mundo girava por segundos quando você virou a cabeça, ou se a vista escureceu ao levantar. Rodou ou apagou? Só isso. Eu te digo no final qual é a sua.
Número sete: o grão de areia solto no ouvido (VPPB)
Vamos lá. Sete causas. Número sete, do grupo que roda. Você vira da cama pro lado e o quarto sai rodando. Olha para cima para pendurar roupa no varal e tem que segurar no fio. Dura segundos. Dá enjoo. Passa. Sua mãe dorme meio sentada com dois travesseiros porque deitar gira. É essa.
A dona Ivone tinha labirintite há anos, caixinha na bolsa, crise toda vez que virava pra direita. O que ela tinha é um grão de areia solto, a VPPB. Dentro do ouvido existem cristais menores que um grão de areia. Eles moram num cantinho certo. Um se solta, cai no canal errado e cada vez que a cabeça mexe, ele rola. Para o cérebro, o mundo está girando.
Isso não é teoria. Em 1992, um cirurgião abriu o ouvido de uma paciente e viu os grãos boiando lá dentro. É a causa mais comum da tontura que roda, muito comum depois dos 50 anos. E remédio nenhum põe o grãozinho de areia no lugar. Nem Dramin, nem cinarizina, nem betaistina. É areia num cano. O que põe no lugar é uma manobra.
A manobra que recoloca o cristal
O médico deita, vira sua cabeça de um jeito certo, espera, vira de novo. 5 minutos. O grão escorrega de volta. A Cochrane, que junta todos os estudos do mundo, mediu: sem manobra, 21% melhoram sozinhos. Com manobra, 56% melhoram. A cada três, uma sai curada na hora.
A dona Ivone fez numa terça. Na quarta virou pra direita. Pela primeira vez em 20 anos nada aconteceu. Ela chorou.
O que fazer? Procura o otorrino ou fisioterapeuta treinado e pede para fazer a manobra. Remédio não recoloca cristal. Essa era do ouvido e nem assim era labirintite. As outras seis não são nem do ouvido. E a próxima você descobre olhando no vaso sanitário.
Número seis: desidratação, café e diurético
Número seis, do grupo que apaga. Seu pai toma quatro cafés por dia e nenhum copo d'água. A pessoa seca por dentro e não sente vontade de beber. Se toma diurético, aquele remédio de pressão que faz urinar, seca ainda mais rápido. Menos água, menos sangue subindo pra cabeça. Quando você levanta, apaga.
Faz o teste. Olha a cor do xixi no vaso. Cor de chá é urina concentrada. Pode ser desidratação. O seu tinha labirintite todo o verão: diurético, calor e café. Quando o médico ajustou a água e cortou o diurético, as crises sumiram.
O que fazer? Se você tem problema de coração ou de rim, não aumente líquido por conta própria. Mas claro, leva a cor do xixi pra consulta. E a próxima você descobre num dedo e um espelho.
Número cinco: hipoglicemia e anemia
Número cinco, apaga e vem com companhia.
Versão um: açúcar lá embaixo
Tontura com suor frio, tremedeira, fome de repente, coração acelerado. Quem toma remédio de diabetes e pulou o almoço conhece muito bem. É o açúcar lá embaixo no chão. Se você mede a glicose e está baixa, hipoglicemia, corrige com açúcar e fala com seu médico sobre a dose.
Versão dois: sangue fraco
Tontura com cansaço que não passa, falta de ar na escada, cara pálida. Vai no espelho. Puxa a pálpebra de baixo com o dedo. Vermelho vivo, normal. Rosa clarinho, quase branco, pode ser anemia. Sangue fraco leva menos oxigênio. Cabeça sem oxigênio apaga.
O que fazer? As duas se descobrem com uma gota de sangue: hemograma e glicose. A próxima não dá sinal nenhum, apaga com você sentado, parado, vendo TV. E o teste dela dura 30 segundos.
Número quatro: o coração que falha (arritmia)
Número quatro. Apaga do nada, sentado, parado, sem levantar, sem virar a cabeça, e de repente apaga por alguns segundos. Faz agora comigo: dois dedos no pescoço, aqui do lado, ou no pulso. 30 segundos em silêncio. Tum, tum, tum. Ela falha, dá um pulo, fica lenta demais e depois dispara.
O seu Geraldo apagava três vezes por semana no sofá. Já tinha passado por todos os remédios de labirintite e nenhum funcionou. Botamos vários fios no peito dele e um aparelhinho, o Holter 24 horas. O coração parava por 3 segundos, várias vezes ao dia. 3 segundos sem batida, o cérebro sem sangue. É a vista fechando. O seu Geraldo ganhou um marca-passo e, adivinha? Nunca mais apagou.
O que fazer? Tontura com palpitação ou com desmaio de verdade? Pede eletrocardiograma. No mínimo. Não é consulta de rotina, é para já. A próxima é a parada da poltrona lá do começo do vídeo. E um em cada cinco idosos tem.
Número três: a pressão que cai ao levantar (hipotensão postural)
Número três, apaga. E sempre no mesmo momento: quando levanta. Quando levanta da cama, quando levanta da cadeira, quando levanta do vaso, quando levanta do banco da igreja. Levanta, escurece, segura, conta até três, segue.
Uma revisão de 2020 juntou os estudos do mundo inteiro. Um em cada cinco idosos tem isso. Na fila do posto, com cinco pessoas, uma apaga ao levantar. E aqui está a pegadinha que engana até médico.
A dona Lourdes media a pressão toda semana sentada: 12 por 8, ótima. Levantando, caía 30 pontos. Ninguém nunca tinha medido a pressão dela em pé. Quando você levanta, o sangue desce pras pernas e o corpo tem um segundo para mandar ele de volta pra cabeça. Cuidado: esse segundo vira três. E o remédio de pressão na dose que servia aos 50 tem uma força muito mais forte aos 70.
O exame que você faz em casa com o aparelho da gaveta
Agora o exame que você faz em casa com o aparelho que está na gaveta. Vou te ensinar como faz. Deita 5 minutos, deitado mesmo. Mede a pressão deitada. Levanta, espera um pouco. Mede com 1 minuto em pé. Mediu. Agora mede com três. Caiu 20 na de cima, na sistólica, ou 10 na de baixo, na pressão diastólica? Você achou o problema.
O que fazer? Leva os três números pra consulta. Não tente ajustar o remédio sozinho. Quem mexe na dose do medicamento é o seu médico. Tudo bem?
E por que eu insisto nessa hipotensão postural? Porque essa tontura leva a queda. Queda leva a fratura de fêmur. E de cada quatro idosos que quebram o fêmur no Brasil, um não completa aquele ano. O segurar da poltrona quando você se levanta é o primeiro capítulo dessa história. Cuidado. E como eu te ensinei, dá para detectar facilmente com o seu aparelho de pressão ou da sua vizinha.
A frase que descobre se aquela crise foi labirintite de verdade
E agora, antes das duas últimas, a frase que vai fazer você repensar aquela crise de anos atrás. Labirintite de verdade é uma inflamação lá no fundo do ouvido. É rara, dura dias, a pessoa normalmente vomita e tem uma assinatura: tira a audição daquele lado.
Então, lembra da sua crise? Ficou surdo daquele ouvido durante dias? Então pode ser labirintite. Não ficou? Então é bem difícil que tenha sido labirintite. No estudo em Recife, o posto carimbou labirintite em 20 em cada 100 encaminhamentos. E aquele grão de areia solto, a VPPB, que eu falei que é a causa mais comum, recebeu o nome certo em menos de um em 100.
Número dois: a tontura que flutua todo dia e a enxaqueca vestibular
Faltam duas. A próxima é a que passa em todos os exames e nenhum acha. Número dois: essa tontura não roda e não apaga. Ela fica. Você sente a cabeça flutuando, pisa como se tivesse andando em ovos. O chão parece balançar levemente. A sensação aparece todos os dias, piora no mercado, na rua cheia ou numa igreja lotada, e costuma melhorar quando você se deita.
A dona Cida passou por quatro médicos em 3 anos. Ouviu que era labirintite emocional, que era da idade e até que era coisa da cabeça dela. Era da cabeça mesmo, mas não era frescura. Às vezes, depois de uma crise de tontura, uma queda ou uma queda de pressão, o cérebro continua em estado de alerta. A crise inicial passa, mas o cérebro permanece vigiando o equilíbrio o tempo inteiro. Por isso, a pessoa fica com essa sensação de flutuar, principalmente em lugares muito movimentados.
Esse quadro tem tratamento, mas não é com o tradicional remédio de labirintite. Geralmente envolve fisioterapia do equilíbrio. E quando existe ansiedade mantendo o alerta ligado, tratamento adequado para ansiedade também.
Enxaqueca vestibular: tontura em crises, sem dor de cabeça
Mas existe outra condição que pode parecer parecida. A tontura vem em crises que duram minutos ou horas. A luz incomoda, o barulho incomoda, dá enjoo. Você já teve enxaqueca ou alguém da família tem? Nesse caso, pode ser enxaqueca vestibular. E o detalhe que mais confunde: em três em cada quatro crises, não existe dor de cabeça. A pessoa sente tontura, mas pensa que é problema lá no ouvido.
O tratamento é diferente, pode envolver prevenção de enxaqueca, sono regular e identificação dos gatilhos. O remédio de labirintite pode não resolver porque o problema não está lá no labirinto. E a dona Cida tomou 3 anos de remédio de labirintite. O que esses três anos fizeram com ela é o número um.
Número um: o comprimido que está piorando tudo
Número um. "Doutor, eu tomo remédio há anos e a tontura nunca passou." Ela não passou porque você nunca teve o que o remédio trata. E o problema é maior que isso.
Pega a caixinha agora, vê o nome do remédio. Cinarizina, flunarizina: os dois remedinhos de labirintite mais vendidos no balcão do Brasil. Um estudo brasileiro, nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria, acompanhou quem tomava esses dois remédios por muito tempo. Me responde de cabeça: quantos desenvolveram tremor, lentidão, passo curto? O quadro que parece Parkinson, mas é parkinsonismo. 34%. Um em cada três. Quanto mais velho, quanto mais anos de uso, maior o risco.
A dona Neusa tomava cinarizina há 8 anos para uma labirintite que era pressão caindo ao levantar. A mão começou a tremer, o passo encurtou, a família achou que era da idade. Um médico suspeitou de Parkinson, mas era o remédio. Ela parou o remédio com acompanhamento. Levou meses. O tremor melhorou um pouco, mas ainda continua tremendo até hoje.
Então veja só: quando você para o remédio, na maioria dos casos o quadro regride, porém às vezes leva até 2 anos. Tem vezes que não melhora tudo. Então, muito cuidado ao tomar esses remédios. Entendeu o tamanho disso? A pessoa não tinha labirintite, tomou remédio por anos de uma doença que não tinha e ganhou uma doença chata, debilitante, que nunca iria ter.
E a betaistina, outro famoso, um dos mais receitados de todos: lá nos Estados Unidos nunca aprovaram esse remédio, não se vende por lá.
O teste de três perguntas: quando a tontura é urgência
O teste que eu prometi, três perguntas. Responde em voz alta.
Um
A tontura vem com dor forte de cabeça, nova, diferente das que você conhece, ou com palpitação, ou com desmaio de verdade? Sim? Então marca a consulta agora, não na rotina.
Dois
Veio com o ouvido que abafou de repente? Sim? Então urgência, mesmo dia.
Três
Aqui decide. Você cambaleia ao andar como se tivesse bebido, com a vista dobrada, fala embolada, um lado do rosto caído, um braço mais fraco? Isso pode ser derrame na parte do cérebro que segura o seu equilíbrio, no cerebelo. Pronto-socorro imediato.
Uma coisa que quem cuida de idoso precisa saber. Tomografia normal é como olhar um ovo por fora. Às vezes pode estar podre por dentro. No começo, ela só enxerga um em cada seis derrames desse tipo. Um em cada seis. O médico treinado olha o movimento do seu olho por um minuto e vê o que a máquina não viu.
Agora o número para você não dormir com medo. De cada 100 pessoas que chegam no pronto-socorro tontas, três são derrames. Tontura sozinha, sem os sinais que eu falei, menos de um em 100. O sinal que muda tudo é o cambalear. Respondeu sim em alguma daquelas perguntas que eu falei? Vai já. Respondeu não nas três? Então você está com os 99%. E a sua causa quase sempre tem conserto.
Por onde começar: três exames e a manobra
Por onde começar? Três exames. Um já falei, vou repetir: pressão deitado e em pé, em casa, três números no papel. Outro, eletrocardiograma, 5 minutinhos. E três, se for preciso, o Holter por 24 horas. E a manobra do grão de areia: o médico deita você, vira a cabeça, olha o seu olho. Se tiver nistagmo, que é aquele tremor de um lado pro outro, ele achou, e resolve na mesma consulta.
Para quem depende do SUS, que é a maior parte de quem me assiste: o aparelho do posto serve pro teste em pé. Pede pra medir deitado e depois em pé. Insista. Eletrocardiograma tem. Fisioterapia do equilíbrio existe pelo SUS. "É labirintite, toma remedinho" não é a resposta final, é o começo da pergunta.
Rodou ou apagou? A sua resposta
Agora a sua resposta do começo. Confere comigo. Rodou por segundos na cama ou no varal? Número sete, o grão de areia da VPPB, vertigem posicional paroxística benigna. Manobra. Rodou por horas com luz e barulho incomodando, ouvido normal? A enxaqueca do número dois. Apagou ao levantar? Número três. O aparelho da gaveta resolve hoje. Apagou com suor frio, tremedeira? Número cinco, hipoglicemia. Apagou parado vendo TV? Número quatro, coração. 30 segundos de pulso. Nem rodou, nem apagou, flutua todo dia? Número dois. E se você nunca ficou surdo, esquece esse nome, labirintite.
A dona Neusa hoje levanta da poltrona, conta até três por costume, e a mão não treme. Ela nunca teve labirintite. Ela tinha um nome errado grudado na sua tontura. Um dia, numa madrugada, vai ser alguém da sua casa que apagou ao levantar, e você vai saber o que fazer. Quem parou na poltrona na sua frente essa semana está com aparelho de pressão, então ela vai saber o que tem.
Isso aqui é informação de qualidade feita com carinho, mas não substitui a consulta com o seu médico. E que o chão fique onde ele sempre esteve.