É o fim das estatinas? Como age o novo remédio que DERRUBA o colesterol
Estatinas acabaram…
Essa semana, uma paciente minha chegou no consultório com o celular na mão. Me mostrou um print do grupo da família. Uma manchete: "Aprovado o remédio que vai aposentar as estatinas."
Ela me olhou e perguntou: "Doutor... eu posso parar a minha Rosuvastatina?"
Eu respondi: CLARO QUE NÃO!
E o motivo desse não... não é o que você está imaginando. Primeiro, deixa eu te mostrar uma coisa.
Porque a notícia é verdadeira
Semana passada, a agência que aprova remédios nos Estados Unidos liberou o primeiro comprimido que ataca o colesterol por um caminho que a estatina nunca alcançou. Isso é fato.
Mas, têm TRÊS armadilhas escondidas. Três. E hoje eu vou desmontar uma por uma, na sua frente.
Doença cardiovascular mata 400 mil brasileiros por ano — causa número um de morte no país, dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Um Maracanã lotado, quatro vezes. É desse tamanho a conversa.
Antes de você se apaixonar pela novidade, a gente precisa fazer justiça
A estatina é o remédio mais tomado do planeta. Acredita? Mais de 200 milhões de adultos no planeta tomam estatina todos os dias.
40 anos de estudo e de mercado. Milhões de vidas acompanhadas. Infartos e derrames evitados aos montes. O CTT collaboration: 175 mil pacientes, 30 estudos.
Resultado único: cada 1 mmol a menos de LDL baixado com estatina corta em torno de 20% o risco de infarto, derrame ou procedimento no coração, como stent.
Então, falar que estatina já era… É mentira. Ela está, agora, neste minuto, segurando o risco de gente que você ama.
"Ah, doutor, mas e a dor muscular? O Google diz que estatina é veneno."
A dor muscular pode acontecer, sim. Mas muitas vezes aparecem só no início do tratamento. Isso não significa que a dor seja inventada. O sintoma é real.
Se o remédio da sua gaveta não for rosuvastatina, mas sim sinvastatina
Aliás… deixa eu abrir um parêntese. Se o remédio da sua gaveta nem for rosuvastatina, mas sim sinvastatina, aí talvez exista uma conversa diferente.
Não estou falando mal das estatinas no geral — a rosuvastatina é excelente, a atorvastatina é ótima, a pitavastatina é fantástica. Mas a velha 'sinva' é fraca, exige uma dose alta pra fazer o que as modernas fazem com pouco, e é justamente ela que mais dá dor muscular e efeito colateral nos meus pacientes.
Então, antes mesmo de você sonhar com esse remédio novo americano, saiba: muita gente só precisa sair da sinvastatina e ir para uma estatina moderna pra ver o LDL despencar com menos chance de ter dor.
Se a estatina realmente funciona, por que uma empresa gastaria BILHÕES tentando criar outro remédio?
Porque existe um grupo de pessoas que faz tudo certo — toma o remédio de colesterol todo santo dia, às vezes até uma combinação de 2 remédios, estatina e ezetimibe, na dose certa — e mesmo assim NÃO chega na meta de colesterol.
O corpo delas precisava de uma segunda frente de batalha. E essa frente não existia em comprimido. Só em injeção. 2 tipos de injeção: uma que precisava ser aplicada de 15 em 15 dias e outra de 6 em 6 meses.
Imagina uma rua. Nessa rua trabalham dez garis.
Todo dia eles recolhem o lixo — vamos pensar que o lixo é o colesterol ruim do seu sangue. Aí, um dia, aparece um caminhão... sequestrando esses garis. Um por um. Quem limpa a rua?
Ninguém.
É exatamente isso que acontece dentro de você. Existe uma proteína que sequestra os garis do seu fígado. O nome dela? PCSK9.
O que importa é o que o comprimido novo faz: ele prende o caminhão sequestrador. Ele é um inibidor de PCSK9. E o que acontece quando você prende os caminhões que estavam sequestrando seus lixeiros? Os garis voltam pra rua. E o colesterol ruim despenca.
A estatina trabalha na fábrica, diminuindo a produção de lixo. O comprimido novo devolve os garis pra rua. Duas frentes diferentes, mas os dois tem a ver com o lixo do LDL.
Bonito. Mas papel aceita tudo. Cadê a prova?
Deixa eu te fazer uma pergunta antes do número. Você confiaria a sua saúde num estudo com cinquenta pessoas? Eu também não.
Esse tinha mais de TRÊS MIL. Dois estudos, 3.207 pessoas. E olha quem eram: gente que JÁ tomava estatina, muitos na dose máxima, e não chegavam na meta. Aí entrou o comprimido novo. Por cima.
Chuta: quanto o colesterol ruim caiu A MAIS? Dez por cento? Vinte?
Quando eu vi esse número... eu achei que tinha lido errado. Voltei. Li de novo.
CINQUENTA E SEIS por cento. Chegando a cinquenta e nove. Adicional. Em cima de quem já tomava estatina no talo, dose máxima que eles aguentavam.
Presta atenção nessa parte, porque é a mais importante do vídeo inteiro
No consultório, quando eu mostrei esse número pra minha paciente, ela abriu um sorriso e disse: "Então a manchete tá certa, doutor. É o fim da estatina."
Foi aí que eu voltei ao desenho do estudo... e encontrei o detalhe que a manchete deixou de fora.
As 3.207 pessoas não receberam o comprimido novo no LUGAR da estatina. Elas receberam o tratamento novo POR CIMA da terapia que já utilizavam.
A manchete que minha paciente me trouxe anunciava um substituto. Mas agora você entendeu que a ciência entregou um reforço.
E aqui mora o perigo real desse momento. Milhares de pessoas vão ler "fim das estatinas" e vão fazer exatamente o que NENHUM estudo testou: largar o remédio que estava segurando o colesterol delas. Ah, esse remédio novo vai chegar em breve. Então vou esperar ele chegar…
E sabe o que acontece? Elas ficam sem um... e sem o outro. E se você parar um remédio que está segurando suas placas na carótida, que está segurando suas placas das coronárias, o que acontece? Pode acontecer o pior. Um derrame, um infarto, uma morte súbita.
Foi por isso que eu respondi NÃO pra minha paciente. Não porque a novidade é ruim. Essa é bem-vinda.
Duas armadilhas já foram. Sobrou a última, e essa mexe direto com o seu bolso.
A manchete dá a entender que a novidade está na farmácia da esquina, te esperando. Ou vai vir logo, rápido. Não está. E o preço... chuta. Lá nos EUA: 1605 reais por mês.
Quanto vai chegar aqui no Brasil? Não sabemos. Mas eu lembro muito bem o que aconteceu com o Rybelsus, a semaglutida oral. Quando o Ozempic era febre, saiu no mercado brasileiro. Eu pensei que sairia pela metade do preço. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. Chegou com quase o preço cheio…
E também tem um detalhe do Brasil que muda essa conta: foi aprovado pelo FDA mas não foi aprovado pela Anvisa. Demora para aprovar. Lembre do Mounjaro. Ele demorou quase 2 anos para chegar aqui, mesmo sendo vendido em larga escala no exterior. Ou seja: essa história ainda nem começou por aqui.
Agora vem a pergunta que interessa: isso é pra VOCÊ?
Pela aprovação e pelos estudos: é pra quem toma estatina direitinho e MESMO ASSIM não chega na meta. Não é "todo mundo que toma sinvastatina ou rosuvastatina". É para casos graves.
Lembre-se, aqui já temos as injeções de inibidores de PCSK9 que prendem o caminhão sequestrador da limpeza do LDL. A revolução do comprimido não é o alvo, é a conveniência. Sair de uma agulha a cada 15 dias ou a cada 6 meses pra um comprimido de todo dia. Tem pessoa que vê vantagem. Se tiver diferença de preço interessante, valeria a pena.
Mas, mesmo assim, eu só passo as injeções contra colesterol para quem tem doença grave, avançada. Não vou passar por causa de colesterol, somente. Principalmente por causa do preço. Eu acho que eu tenho entre 30 e 40 pacientes que usam a injeção. É pouco. E, mesmo assim, eu sou um dos médicos que eu conheço que mais prescreve.
Se o seu problema é a estatina
Ah, eu tenho dor, eu tenho fraqueza, algum efeito colateral importante da estatina. Uma alternativa, que já tem no Brasil há quase 1 ano, é o Nustendi. É a união do ácido bempedoico e ezetimibe. É justamente para aquelas pessoas que tem intolerância a estatina.
E, para ser bem sincero, foi um remédio que me surpreendeu. Quando eu li os estudos da medicação, pensei que seria uma troca ruim, um estepe feio, de pneu fino, que serve até você ir ao borracheiro. Não é. Eu passando e meus pacientes retornando, tive resultados muito bons com ele.
E, nesse ano, saiu no JAMA um estudo mostrando que o ácido bempedoico reduz embolia pulmonar e trombose. Uma vantagem que ninguém estava esperando.
Então, meu parecer
Estatina ainda serve?
Sim, com certeza, e funciona. Tem estatinas que causam mais efeitos colaterais que outras? Sim.
Ezetimibe é um bom remédio para associar com estatina e chegar na faixa de LDL colesterol?
Excelente.
Inibidores de PCSK9, que param os sequestradores dos garis, são bons?
São, mas são muito caros. 8 mil reais a cada 6 meses, em média.
"Doutor, com o remédio que eu tomo hoje... eu chego na minha meta de colesterol?"
O nível do LDL colesterol depende do risco da pessoa. Se você não tem outra doença, seu LDL ideal seria menor que 115 mg/dl. Se você é muito alto risco, teria que ser menor que 50 ou, em risco extremo, menor que 40.
Porque a gente sabe que quanto menor o LDL colesterol, menor o risco de ter um outro evento, infarto, derrame ou morte súbita.
Eu vou deixar uma tabelinha aqui, para você ver qual o seu risco e qual o seu LDL ideal. Isso, do último consenso de 2025.
Então, se o seu colesterol está na meta com o remédio que você toma, ótimo. Não precisa trocar. Seu jogo não mudou nada. Continua.
Se for NÃO: você sabe que tem outras cartas na mesa. Estatinas mais potentes, associação com ezetimiba, Nustendi e inibidores de PCSK9. E agora existe esse remédio novo, que é oral. E quem decide se ele entra é o seu médico, com os seus exames na mão. Nunca um print. Nunca uma manchete.
E o veredito do título: a era das estatinas acabou?
Não.
O que começou a acabar é a ideia de que a estatina, sozinha, consegue levar todo mundo à meta. E que estatina é o melhor remédio que a gente tem para colesterol. Não é. E, não, ela também não é a vilã que muita gente pinta. Ela salva vidas. Muitas vidas.
Mas importante: para muita gente, ela continuará sendo suficiente. Para outras, será a base sobre a qual novos tratamentos serão acrescentados.
A manchete não é simplesmente substituir. Em muitos casos, é somar.
A minha paciente ouviu tudo isso no consultório. Viu que ela estava na meta. Respirou aliviada. Guardou a cartela de volta na bolsa. E saiu mais consciente que entrou.